populus

Não conseguia conter o riso bobo e fácil que minha boca insistia em usar ao encontrar-me uma vez mais naquela situação. Aliás, ela superava, de longe, todas as outras. Assumidamente desnorteado (já fui até mesmo chamado de 'geograficamente burro’), até hoje não sei apontar com convicção para o norte, para a avenida Paulista ou para o centro de São Paulo, nem mesmo se minha vida disso depender. Por isso que o riso bobo e teimoso não se desfazia: erro caminhos como ninguém, mas consegui perder-me tentando chegar em casa, e já conseguia imaginar as chacotas de que seria alvo. Aliás, se a bateria do meu celular tivesse resistido a noite toda, provavelmente contaria a meus amigos mais íntimos sobre mais essa presepada antes mesmo de tentar colocar-me no caminho certo. Para os demais, ainda mantinha a fachada de ter sempre tudo sob controle.

Passava já um pouco de 3h da manhã, e a carona que peguei me deixou relativamente perto de casa. Censurava silenciosamente aqueles que, na saída da festa, insistiram para que desse uma chance ao rapaz que passara horas tentando atrair minha atenção. Resultado: nada tínhamos em comum. Não é preciso dizer que tivemos dificuldades no percurso e, na agonia de pôr-me livre da sua (compreensível) impaciência e de desastroso encontro, acabei ficando algumas quadras fora do caminho. Como tudo que estava ao meu redor era-me ligeiramente familiar, acreditei que não teria nenhum problema. Aliás, tinha quase certeza de que já havia feito compras na farmácia logo na esquina da rua em que desci, e também poderia jurar que, dobrando à esquerda, daria de cara com um empório de bebidas (tinha tal itinerário até meio que claro na minha cabeça). Ledo engano. Ao andar até a esquina, o primeiro baque: rua completamente desconhecida. Menos teimoso do que amedrontado, receava em pedir ajuda aos pouquíssimos gatos pingados mal encarados com quem cruzava — eles, provavelmente, também tinham receio de serem abordados por um estranho àquela hora. Um cão que me acompanhava há alguns minutos era a única coisa que ainda me mantinha o coração ligeiramente aquecido. Apelidei-o de Populus. Foi o primeiro nome que me veio à mente — minha obsessão por tudo Belchior estava no auge — e, como ele pareceu gostar da alcunha, assim continuei referindo-me a ele meio a lambidas e afagos.

Gustave Doré

Cerca de meia hora e milhares de passos depois, já não sorria. Meus lábios, ameaçados pelo mau humor das minhas pernas cansadas e dos pés desconfortáveis, assumiram uma expressão irritada e de descontentamento. Cada vez que realizava que corria em círculos, poderia jurar que minha respiração debochava de mim em forma de curtas e cínicas expirações que me insultavam até a terceira geração. Minha esperança maior era conseguir um táxi (mesmo que não estivesse livre para a corrida, eu imploraria por qualquer mapa em forma de rabisco numa tira do jornal de anteontem que pudesse ser-me útil). A sensação inicial de familiaridade evaporara e agora tudo parecia-me completamente inédito, como turista em viagem mal planejada; como espírito negligenciado, recém desencarnado que desembarca no inferno sem que o diabo ao menos me houvesse apontado um demônio-guia. Sorte mesmo teve Dante ao contar com Virgílio durante sua peregrinação. Aliás, bela bosta ter lido a “Comédia” duas vezes e não ser nem ao menos capaz de chegar sozinho em casa. Pedante de merda. Se ainda o atencioso Populus pudesse falar…

Meu desespero crescia na mesma proporção em que a temperatura cedia. O vento cortava e eu já viajava há quase 2 horas. Ao esfregar minhas mãos para aquecê-las, por um instante senti que o frio fora transferido, como que por mágica, inteiramente para a minha barriga, tamanho susto que tomei: pareceu-lhe, por um instante, que nem minhas eram. A cada viela, mesmo aquelas por quais passara momentos antes, surgia novo estranhamento. Cogitei ser a piada da impiedosa cidade que decidira pregar-lhe uma peça, rearranjando suas ruas e caminhos às suas costas, instante após instante. Mesmo meu reflexo que via nas vitrines que o assistiam passar — e que provavelmente também riam e comentavam da minha desgraça — cada vez era-lhe menos reconhecível. E não era exagero e nem se tratavam das conhecidas deformidades na expressão causadas por irritação, cansaço e frustração: era como se não mais se reconhecesse e outra pessoa houvesse descido não só daquele carro, mas de dentro de si próprio. Até mesmo as placas de sinalização rendiam-se inúteis: traziam rabiscos ilegíveis e não mais os conhecidos abc’s. Para piorar, enquanto encarava e se procurava no estranho da vitrine, nem me dera conta da infidelidade de Populus, que dele fugira sem nenhuma consideração ou despedida.

De repente, arrepiou-lhe a nuca um sopro de esperança: sonhava.

Não. Não estava sonhando. Nem alucinava. Intoxicado? Também não. Realmente encontrava-se (ou desencontrava-se) naquele pesadelo: estava completa, total e irremediavelmente perdido. Nada era como conhecera até ali. Sentia cheiros que não conseguia identificar e sons que lhe despertavam reações quase físicas que seu (seu?) cérebro não conseguia mais processar. A única convicção que trazia agora era o não-ser. Sentia que não mais era, e isso o desesperava a ponto de ser capaz de chover.

Acreditou até mesmo ter voltado ao passado quando, poucos passos adiante, avistou o que parecia ser um telefone público. Teria ele descido de um DeLorean para outros tempos? Nunca saberia, também era péssimo com marcas, modelos de carros. Descrente, tentou pensar positivo: aquele telefone público era (tinha de ser!) real. Hesitou em tocá-lo quando viu a mão estranha que estendia, e se deu conta de que o único número que sabia de cabeça era, também e talvez por isso mesmo, o único para o qual não poderia ligar: aquele que tentara esquecer com técnicas de memorização ao avesso, mas que teimava em persistir ali, claro e destacado, tal cicatriz de corte profundo. Mesmo em seu atual estado de perturbação. Mesmo naquela madrugada. Convenceu-se de que se tratava de uma emergência e resignou-se de que já era hora de novamente ouvir aquela voz. Espichou novamente a mão dele.

Telefone mudo. Roxo. Conhaque. Velho. Azedo. Magnésio. Líquido. Linho. Quente. Mercúrio. Feio. Perverso. Tsunami. Cólera. Incêndio. Baço. Ferida. Agulhada. Erro. Duro. Tirano. Grito. Desaparecido. Violento. Nunca. Fome. Falência. Pavor. Ácido. Murro. Perda. Cova. Dor. Vil. Putrefato. Febre. Esgoto. Chorume. Veneno. Hérnia. Peste. Prejuízo. Erosão. Desprezo. Excremento. Queimado. Inveja. Suicídio. Sede. Câncer. Assassínio. Afogamento. Desmoronamento. Ciúme. Colapso. Apatia. Farsa. Desnutrição. Penúria. Guilhotina. Inimigo. Cárcere. Jazigo. Granada. Chacina. Implosão. Sujo. Ocre. Crueldade. Ódio. Ratazana. Ressentimento. Ordinário.

Como o som de palmas anunciando fim de hipnose, foi uma lambida de cachorro naquela mão que arrancou-lhe do transe. Ao voltar a si, ouviu alarmado questionamento: — o que é que você está fazendo?

Respondeu, sem pestanejar:

— Agora ou com a minha vida?

Não reconheceu sua própria voz.

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