São Paulo, 16 de Setembro de 2017

Acordei. Antes de conseguir abrir meus olhos, espirrei e percebi que tremia de frio. A garganta arranhava porque já não conseguia respirar pelo nariz e, apesar do aquecedor comprado às pressas algumas semanas antes, a sensação térmica ainda era congelante. Decidi dar um voto de confiança ao sol — que não aparecia há muitos dias — ao escancarar esperançosamente de uma só vez as cortinas do meu quarto; como se houvessem apertado o botão de rewind, fechei-as igualmente depressa diante daquela cena desconcertante: dúzias e mais dúzias de pessoas, no prédio da frente e também na calçada oposta, olhavam-me fixamente, como se minhas amplas janelas fossem grades e eu, animal.

Ainda na confusão do despertar considerei, por breves segundos, se não havia confundido de pessoa ao retornar da terra dos sonhos — já que, como confessei, sou péssimo com caminhos e encontro-me seguidamente perdido — e acordado em outro ser. Desanuviando um pouco as ideias, entretanto, atinei para o fato de que o dia lá fora parecia muito branco, como a representação do paraíso em novela de tv. Curioso e mais cauteloso, apenas afastei alguns centímetros da cortina para que pudesse ver sem ser visto, e percebi que não, não me olhavam. Maravilhavam-se todos com o que ofertava-nos o céu.

Naquele ano, o inverno estava rigoroso como jamais se vira antes. Naquele mês, a capital batia, incansavelmente, recordes de baixas temperaturas. Naquele dia, nevou.

"Neva aí também ou é só a minha janela?", digitei trajando um morno sorriso enquanto vestia-me para sair. Mas logo desisti, dando-me conta de que o vento já me soprava frieza suficiente por si só.

Já na rua e depois de apreciar a novidade e brincar, tímido, com a neve, segui o meu caminho. Dobrando à esquerda e entrando na viela costumeira, reconheci-o e, pela primeira vez nas últimas semanas, senti-me ligeiramente aquecido. Empunhei o sorriso e armei o abraço mas fui completamente ignorado. Passou por mim como por porta aberta. Ainda fiz menção de chamar mas a voz, solidificada, não soou.

Aturdido e completamente enregelado, ruminei mais uma vez aquele sonho que me acompanhava já há tantos anos. Entre o correr e o ficar, escorreguei e caí de quatro no chão fofo e coberto pela neve. Envergonhado, sentei-me e olhei para trás, preparado para a humilhação de que ele não só me tivesse visto cair, mas também se deleitasse com a queda. Ao meu redor estava deserto, e agora ele era apenas um vulto distante qualquer e pude então exalar, em forma de ar, a dor que sentia no peito.

Perguntei-me se não deveria alcançá-lo para pedir satisfação sobre hoje, sobre ontem, semana passada ou mesmo sobre o inverno e decidi que sim, iria atrás dele, de uma vez por todas. Coloquei-me de pé, corrigi a postura e quando fiz menção de limpar-me, percebi que não estava sujo ou molhado. Olhei para o chão sob mim: nada. A neve estava intacta. Olhei para todo o caminho percorrido nos últimos tempos mas não ficaram passos. Não vi pegadas. Não havia rastros. Não deixei marcas.