In Extremis (ou A Hora da Estrela)

A mão que mata,
a mão que aperta o gatilho,
a mão que arma a bomba,
a mão que dispara aviões, caminhões,
é uma mão terrivelmente humana.
Uma mão que diziam não ser importante.
Uma mão que podia e merecia ser esquecida.
Uma mão que era ensinada a ser nada.
Uma mão que aprendeu que não havia lugar nesse mundo.
Uma mão que não encontrou outra mão que a erguesse.
Uma mão que não encontrou outro irmão, outro caminho.
Uma mão que não aprendeu a escrever.
Uma mão que não teve oportunidade de construir.
Esta mão diz: eu existo e posso mudar mundo.
Sua carne é vermelha como a minha,
seu gemido é amargo como o meu,
posso ser parte, mereço um lugar.
Uma mão que humaniza como um anjo da morte.
Uma mão que desperta.
Então o Ocidente acorda em meio estampidos,
desorientado, perdido, petrificado,
e lança aulas adicionais a terras devastadas.
Deseja destruir o mal, todo mal,
o mal escolhido como mal.
E partem.
Partem armadas,
exércitos invencíveis
a inventar labirintos de dor.
Partem vilas, escolas, hospitais.
Partem mãos humanas,
terrivelmente humanas,
a esperar
um herói,
um pavio,
um fio de esperança.