Pobre Ilha Terceira

Fotografia apresentada no artigo Sábado.pt
Não posso deixar de transcrever a minúscula prosa com que a Sábado, em meia página, brinda a Terceira: “Desde Angra do Heroísmo, a maior cidade da ilha Terceira, são apenas 15 quilómetros até à Serra do Cume, onde a paisagem, do alto do miradouro, é um postal ilustrado de 180 graus…

Numa das suas edições de Setembro passado, a revista Sábado publicou uma reportagem sobre os Açores.
No seu suplemento, de nome GPS, e sob o título “Açores — 9 ilhas para pastar”, dedica dez páginas ao nosso arquipélago. Cinco dessas páginas são sobre São Miguel. Metade, portanto.
Já no que toca a fotografias, das vinte e quatro dadas à estampa, catorze são de São Miguel. Aqui, como se vê, a percentagem de desigualdade aumenta significativamente.
Pico e Santa Maria têm direito a uma página.
As restantes seis ilhas, apenas mereceram meia página, cada uma delas.
Óbvio que, dispondo de cinco páginas, São Miguel revela-se ao País na sua enorme dimensão. Sobre a ilha verde fica informação longa e detalhada acerca de hotéis, restaurantes, pratos regionais, festas e festivais, Arte, chá, cerâmicas, etc.
Em relação a oito ilhas, há menção a seis hotéis. No que respeita só a São Miguel, contei sete.
Não posso deixar de transcrever a minúscula prosa com que a Sábado, em meia página, brinda a Terceira:

“Desde Angra do Heroísmo, a maior cidade da ilha Terceira, são apenas 15 quilómetros até à Serra do Cume, onde a paisagem, do alto do miradouro, é um postal ilustrado de 180 graus. Abarca a baía da Praia da Vitória, de onde se avista a planície das Lajes, a base militar e a famosa Manta de Retalhos, que é o nome dado ao painel de campos divididos por muros de pedra vulcânica. Se tiver tempo, dê a volta à ilha e guarde o miradouro para o fim, a tempo de chegar para o pôr-do-sol”.

Ladeia esta pérola literária a menção a um hotel e a um restaurante. E é tudo.
Prezados, ou será mais rigoroso dizer, pesados governantes: parabéns pela vossa obra.
Não me refiro à reportagem, óbvio, até vós talvez conseguísseis fazer melhor. Refiro-me à realidade que lhe está subjacente, isto é, ao que conseguistes fazer da chamada Autonomia. É assim que nos vêem, lá fora…
Devo avisar, pesados governantes, que sou muito avesso a qualificar qualquer acto humano como “natural”. Natural, para mim, é mesmo o que vem da natureza. A água que brota nas fontes, esse tipo de coisas, em que não há intervenção do homem.
Assim sendo, rejeito liminarmente os que diriam que é “natural” este tratamento jornalístico, dado ser São Miguel maior, com mais obras, mais potencialidades, mais gente, mais infraestruturas, etc. Não foi Deus, nem a Natureza, quem fez a maior parte do que é hoje a ilha maior. Fostes vós, sendo da mais elementar justiça o reconhecimento de tal feito. O seu a seu dono, aqui usada a expressão com invulgar propriedade, já que sois os donos disto tudo. E só não digo a César o que é de César porque o César verdadeiro poderá exaltar-se no túmulo e indignar-se por outros com o mesmo nome se terem arrogado ao direito de construírem pequenos e míseros impérios, sem cuidarem da sua pequenez.
Claro que há uma parte natural em São Miguel, de beleza inigualável e extasiante. Mas vós apostastes, pelos vistos com tremendo sucesso, em acrescentar à mão de Deus riquezas tremendas. Nada há de “natural” nas Portas do Mar, chamariz para imensos cruzeiros, nos inúmeros hotéis, nos voos low cost, enfim, em todas as obras que realizastes para que a ilha naturalmente maior crescesse mais e mais ao longo dos anos. Vede (e admito a minha indesculpável ingratidão) que nem vislumbro nada de natural no facto de terdes ajudado com milhões o Santa Clara a ir para a primeira divisão e lá se manter (a perder, mas isso já era previsível, até para vós)…
Direis, e eu terei de admitir a vossa razão pela forma como andais na política: “naturalmente” que tínhamos de investir na ilha que nos dá mais votos, para assim nos perpetuarmos no poder. Claro que isso é “natural” em vós. Pena que os outros calhaus tenham de sofrer tanto para que ainda nos chamemos Açores, e tenhamos “Autonomia”. Atentai que até já tomamos por “natural” o facto de, quando acontece uma coisa boa por qualquer ilha mais pequena, é coisa “açoriana”. Quando acontece uma coisa boa por São Miguel, é coisa de São Miguel. Quando acontece uma coisa má, passa a ser coisa da ilha onde acontece…
Devo dizer-vos, sujeito a que raios e coriscos (desculpem, não foi com intenção) me atravessem: passados estes quarenta anos, centralismo por centralismo, preferia o de Lisboa. Porque o dinheiro que vós custais dava para fazer tanta coisa…
Há três hipóteses, para a produção da mísera reportagem em análise:
- ter sido a própria Sábado a custear na totalidade as viagens, estadias, refeições e divertimentos dos autores. Se assim tiver sido, o que sinceramente duvido, trata-se apenas de mais um exercício de péssimo jornalismo;
- terem sido os hotéis e restaurantes da ilha de São Miguel a albergar e alimentar os “jornalistas”. Aqui também nada a dizer, terão sido os micaelenses a mostrar-se mais intrépidos e empreendedores, na busca de publicidade;
- ter sido o Governo Regional a patrocinar de alguma forma, em parte ou no todo, a reportagem em causa, por exemplo através da Direcção Regional de Turismo. Não seria inédito, pelo contrário, houve casos em que tal prática se revelou corrente, até em telenovelas.
Se a terceira hipótese se tiver verificado, terá sido o gozo supremo: os açorianos de oito ilhas a pagarem impostos para parte deles ser aplicada na promoção turística de uma só ilha.
Exigimos saber, pesados governantes, se houve dinheiros públicos envolvidos nesta brincadeira da Sábado. Não que vá mudar alguma coisa, quer na reportagem publicada, quer na vossa prática. Mas pelo menos ficamos informados…
Não vou falar aqui de tudo o que a Sábado devia ter dito, em relação à ilha Terceira. Da sua importância histórica, do facto de Angra do Heroísmo não ser “a maior cidade da ilha”, ser muito mais que isso, nomeadamente Património da Humanidade, do Castelo de São João Baptista e a sua ímpar área muralhada, do Algar do Carvão, da dimensão cultural (touradas à corda e carnaval), etc, etc, etc. Quem ler a Sábado ficará com a ideia de que esta ilha é a Serra do Cume, sobretudo ao pôr-do-sol…
E a culpa desta triste omissão sobre o que é e representa a ilha Terceira, é certamente da Sábado, dos governantes que ao longo de décadas têm ido furtando até a sua dignidade. Mas é também, perdoem dizê-lo, dos terceirenses que aceitam sem gemer a canga de um centralismo autonomista.
Poderão ter perdão a Sábado e aqueles que se querem manter no poder até ao fim das suas vidas ou, até, deixarem o mesmo poder para descendentes e familiares, como já acontece. Mas não têm perdão os terceirenses que se esquecem que, quando outros se venderam, este povo permaneceu digno e lutador. Até esse legado de orgulho nos tiram, dia a dia.
Quando, há anos, vi Carlos César fantasiado de Ciprião de Figueiredo, senti-me gozado. Porque, já nessa altura, me sentia preso em liberdade, em paz sujeito, sem se quer meios para dar a morte que Ciprião reclamaria pela dignidade. Mas ver os resultados previsíveis das eleições que se aproximam só me deixará ainda mais triste. O que fomos, e no que nos tornámos, bom povo terceirense…
Uma última palavra, para a Sábado. O título da vossa reportagem é “Açores — 9 ilhas para pastar”. Sei que a vossa intenção deverá ter sido “9 ilhas para descansar, sem fazer nada, relaxados”. Mas este é apenas o sentido figurado do verbo pastar. O sentido real de pastar é “comer a erva que ainda está na terra”.
Por aqui, deixamos tal função para as vacas. Mas… e à moda da Terceira:
Aquilo que publicastes,
Não agradou cá à malta,
Se provastes e gostastes,
Vinde, pois erva não falta.
António Bulcão

(publicado 12 de Outubro 2016, no Diário Insular, escrito por António Bulcão)

(artigo da Revista Sábado)