O Esquadrão de Bibliotecários que caça livros semi-esquecidos
Se você esqueceu o título ou o autor daquele livro que quer tanto ler de novo, não se acanhe: os bibliotecários de Nova York podem te ajudar.

Por Jessica Leigh Hester, no Atlas Obscura. Tradução de Renato Pincelli.
O CARPETE ERA CÁQUI, as luzes, amareladas, as paredes, de um bege lavado. O laboratório de informática situado num subsolo do centro de Manhattan não era muito atraente. Mas era ali que estavam sentados 20 bibliotecários da New York Public Library [NYPL, Biblioteca Pública de Nova York] — e estavam reunidos para solucionar mistérios. Suas ferramentas eram um quadro branco, um marcador, uma série de monitores e uma campainha metálica do tipo que se encontra no balcão de um hotel. Sempre que ela soava, era sinal de que havia um caso encerrado.
Antes de termos nossas pequenas enciclopédias brilhantes em nossas mãos, tínhamos os bibliotecários e eles ainda são experts em encontrar respostas para perguntas espinhosas. Através do portal Ask NYPL e de um serviço telefônico e de mensagens de texto que existe há décadas, os funcionários da biblioteca nova-iorquina já processaram tudo, de questões sobre a vida sexual do papa ao significado de sonhar que você está sendo perseguido por elefantes. A equipe da biblioteca é formada por ases da pesquisa, com acesso a um arquivo monumental num estalar de dedos. Há um quê de mistério em seu ofício quando alguém se aproxima deles com questões vagas e detalhes nebulosos — principalmente quando essa pessoa está procurando um livro mas não se recorda do autor ou do título.
Há alguns anos, funcionários da Divisão de Serviços ao Leitor da NYPL escreveram um post num blog explicando como rastrear um livro quando sua memória falha. Essa publicação deu origem a uma sequência, onde a bibliotecária Gwen Glazer recomendava recursos bibliográficos e inúmeras outras estratégias — entre as quais estão os grupos do Goodreads [uma espécie de Skoob gringo], uma crescente thread do Reddit chamada /whatsthatbook e um livreiro indie de Ohio que está pronto a te dar uma mão em troca de uma taxa de quatro dólares. Graças ao Google (“como encontrar um livro”), muitas pessoas estupefatas estão caindo naquele post, onde frequentemente escrevem sobre seus quebra-cabeças nos comentários. Essas mensagens agora contam-se às milhares e Glazer diz que quase sempre surgem mais 10 pedidos de título quando ela chega ao trabalho.
Para resolver esses pequenos mistérios, Glazer montou, recentemente, um time de detetives de todas as sucursais da NYPL: Chatham Square, em Chinatown; Jefferson Market, em Greenwich Village; a Biblioteca Andrew Heiskell de Braille e Audiolivros, perto do edifício Flatiron e seção de Mulberry Street, em Nolita. No horário do almoço de uma quarta-feira recente, o grupo se reuniu naquele laboratório de informática no escritório da biblioteca, situado do outro lado da rua, diante do espetacular Edifício Stephen A. Schwarzman, a matriz da NYPL. Enquanto batiam em seus teclados, eles petiscavam cookies de alecrim com limão e bolos de maçã, cenoura e abobrinha-italiana. Embora alguns participantes estivessem trabalhando remotamente, a hackatona “Title Quest [Caça ao Título]” estava começando.

GLAZER ENCORAJOU alguns colegas a começar dos comentários mais antigos para os mais recentes; outros começavam dos mais novos para os mais antigos. Os leitores buscavam ajuda com todo tipo de livro. Uma história sobre um dragão que alicia uma menina como sua aprendiz e que também seria um caçador de queijo. Outra sobre um sujeito jovem chamado Wurm (“grafado com u, não com o”, alertava o comentário), que fazia jogos de computador em seu dormitório da universidade. Ou algo sobre identidade equivocada, amor que deu errado, casos tórridos e casamentos infelizes, ambientado por volta de 1900 (este chamou a atenção de outros comentaristas: “não tenho ideia de qual seja o nome desse livro, mas se alguém responder corretamente, gostaria que me mandasse um e-mail porque isso parece algo que eu gostaria de ler”. Outro perguntava se o livro era bom mesmo.)
O primeiro caso foi encerrado em poucos minutos, graças a um funcionário remoto que reconheceu o enredo de Behold the Dreamers, de Imbolo Mbue (2017). A sala foi tomada por uma salva de palmas e o retinir entusiástico da campainha de hotel. Alguém riscou aquele item do quadro branco. Os funcionários logo voltaram à sua área, murmurando baixinho para si mesmos. “Existem muitos mistério de assassinato sobre parentes muito ricos”, murmurou um, rolando uma lista em sua tela. “Serial killers…”, pensava alto alguém ali perto. Depois, a sala caiu num silêncio quase completo, até a campainha soar novamente.
Glazer e companhia faziam buscas com nomes próprios, localizações, palavras-chave e outras pistas. Existe um banco de dados onde você pode procurar por palavras-chaves da capa, mas isso nem sempre é útil, já que as capas mudam com o passar do tempo e das edições. Aliás, a memória dos leitores nem sempre é confiável. “Você precisa saber que pelo menos algum detalhe sobre o qual alguém tem certeza pode não estar certo”, disse Stephanie Anderson, diretora-assistente de seleção e ordenamento.
Para Rhonda Evans, bibliotecária de recursos eletrônicos, “revirar bancos de dados também pode ser uma arte”. Ela explica que os metadados armazenados numa entrada são digitados manualmente e podem ser algo subjetivos, pois foram informados pela pessoa que os colocou lá, em determinada época e lugar. Num banco de dados, por exemplo, uma busca por “integração” vai listar resultados diferentes daqueles que você teria se procurasse por “dessegregação”. Evans diz que “palavras que achamos ter o mesmo sentido podem trazer resultados completamente diferentes.”
Glazer caçava aquela história com “Wurm”. O comentário estava cheio de detalhes surpreendentes e úteis. O comentarista dizia pensar que tinha algo a ver com areia. Glazer começou a verificar a NoveList (um banco de dados especializado para bibliotecas), mas nada parecia muito certo: havia muitos livros de imagens e romances de fantasia. “É aqui que os bibliotecários ficam bibliotéticos”, declarou Glazer [no original, há um trocadilho entre librarians e librarian-y]. Ela refinou a busca, marcando as caixas “adolescente” e “ficção”, mas saiu de mãos vazias. “Agora vou direto para o Google”, onde ela caiu numa página do Reddit e soltou um suspiro. “Ah, acho que temos algo aqui!” Ela leu. “Parece que é isso.” — era The Gadget Factor, romance de jovem adulto escrito por Sandy Landsman em 1985.
Durante aquela tarde, a equipe rastreou 48 títulos, mas nem sempre tinham certeza absoluta do que haviam encontrado. Lynn Lobash, gerente de serviços ao leitor, estimava algo como até “85% de certeza”. Ela espera que isso seja o bastante para reunir alguém com um livro esquecido mas muito querido.
JESSICA L. HESTER é redatora fixa do Atlas Obscura, onde publicou essa saga bibliotecária em 06/08/2018. Outros artigos recentes dela tratam de temas parecidos: como a vida de um detetive de plantas e um museu que ajuda o público a identificar fósseis.