As Mulheres em Histórias de Detetive
Histórias de detetives foram, por muito tempo, associadas a um universo predominantemente masculino. Tanto na literatura quanto no cinema, as personagens femininas pouco se destacam nesse gênero, estejam servindo como objeto sexual, tal qual todas as Bond girls já apresentadas, ou vítimas de crimes elaborados para o deleite do intelecto dos sagazes detetives retratados.
Uma das raras personagens a fugir desse papel tradicional é Lisbeth Salander, a qual muitos atribuem o sucesso da trilogia Millenium de Stieg Larson. Neste artigo, contudo, abordaremos o papel das personagens femininas sob a ótica de dois grandes autores de língua inglesa: Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle.
Tomemos como referências “A Carta Roubada” de Poe e “Um Escândalo na Bohemia” de Conan Doyle. As semelhanças entre essas obras são muitas e nota-se a clara referência crítica de Conan Doyle ao conto do autor de “O Corvo”. Em “A Carta Roubada” o detetive Dupin, sagaz, inteligente, perspicaz e atento aos detalhes – uma clara influência para o Sherlock de Doyle – deve resolver o mistério de uma carta roubada do quarto de uma mulher, a qual subentende-se ser a rainha. A carta fora roubada pelo ministro D., que chantageia a personagem com a posse desse documento. A polícia investiga os aposentos do ministro e, apesar do escrutínio detalhado, não encontra a carta. Dupin, por sua vez, ao utilizar-se de seu intelecto consegue resolver o mistério.
Nesse conto, tal como na obra de Poe, a mulher não age: é a vítima impotente da narrativa. A princípio poderia-se argumentar que se trata do mero retrato de uma personagem isolada. Porém, na obra de Poe, é claramente perceptível o papel designado às mulheres como objetos: vítimas impotentes das ações das demais personagens, sempre sendo chantageadas ou encontradas mortas – em assustadora proporção. As posições racistas e misóginas do autor eram explícitas, sendo que afirmou certa vez que “a morte de uma bela mulher é inquestionavelmente o assunto mais poético do mundo”.
A obsessão pela morte de mulheres pode ser explicada pelo tipo literário comum ao período de personagens femininas destinadas a morte, seja pelo suicido, assassinato ou morte natural. A aparente contradição entre morte e beleza é, na verdade, o traço revelador dos problemas dessa estética, em que oculta-se a morte pela beleza de sua representação: mulheres, símbolos sagrados, ritos ou paisagens oníricas.
No conto de Doyle, como uma crítica a esse tipo literário, encontramos Irene Adler, sagaz, independente e inteligente: única personagem a ter superado Sherlock Holmes em seu intelecto. Ao contrário da impotente rainha chantageada de Poe, em “O Escândalo da Boêmia”, é Irene quem detém o controle da situação. É ela quem chantageia o rei da Boêmia com a prova de seu affair. Além disso, deixa o poderoso rei para se casar com um advogado, a quem verdadeiramente ama. Um exemplo de personagem feminina forte, determinada e bem construída há mais de um século.

Se já nos anos 1890 Conan Doyle conseguiu criar uma personagem tão emblemática, deveríamos esperar um retrato tão forte quanto esse na adaptação televisiva das aventuras de Sherlock Holmes, na série homônima da BBC. Contudo, em seu primeiro episódio “Um Escândalo em Belgrávia”, a série televisiva compôs um retrato aterrador da misoginia ainda existente em nossa sociedade.
Vários são os problemas da Irene na adaptação para a TV. Em primeiro lugar, ela nos é apresentada como a femme fatale, uma mulher que conquista seu adversário pela sua beleza física e não pelo seu intelecto. A cena na qual Irene encontra-se completamente nua diante de Sherlock reforça seu papel de objeto sexual para a trama. Nesse ínterim, revela-se que Irene seria lésbica, porém novamente a série demonstra suas falhas na retratação de minorias: apesar de lésbica, apaixona-se por Sherlock, um “homem de verdade”. Não bastasse a objetificação, a supressão do intelecto formidável da personagem original e a “correção” do seu lesbianismo, a adaptação a planifica ainda mais colocando-a na situação típica da donzela em perigo: Irene é capturada por terroristas paquistaneses e Sherlock tem de a salvar.
Perpassamos três momentos distintos da representação das mulheres em histórias de detetives e percebemos que, apesar da existência de personagens femininas descritas de forma realista, ainda precisamos superar diversos obstáculos para a concretização das pautas de luta feminista.