Eu só queria compartilhar uma história.

Aconteceu comigo no sábado. Eu tava num curso, o dia inteiro, e quando fui almoçar, mandei um “feliz aniversário” pelo Facebook, pra uma amiga que não via há 20 anos — apesar de nos acompanharmos pelas redes sociais sempre. Assim que cheguei em casa e entrei no Facebook, tinha a resposta dela pras minhas felicitações. Ela me convidava pra ir comemorar com ela, já que veio pra cidade passar o fim de semana.

Pra começar, esse curso fez a antiga eu ir embora. A antiga eu pensaria “poxa, passei o dia fora, tô cansada, minha cara tá melecada de suor, minha roupa nem tá adequada, acho que nem vou.” Mas, como eu disse, a antiga eu foi embora.

A nova eu entrou em casa, deu uma arrumadinha na maquiagem, pegou o carro e só foi. A nova eu nem sabia direito onde era o restaurante onde a gente ia se encontrar. A nova eu nem pensou em quem estaria lá, nem ficou com medo de não conhecer as pessoas que estariam lá, com medo de falta de assunto. A nova eu pensou que se a aniversariante tava lá, já era o suficiente.

Depois que parei no supermercado pra pegar o documento do carro com minha mãe, fiz o trajeto mais rápido na cabeça: saio daqui, dou a volta na quadra, pego a beira-mar e vou pelo túnel, assim chego na ponte mais rápido.

Mas a nova eu tem que fazer sinapses novas no cérebro e, inconscientemente, pegou outro caminho: o mais difícil e demorado. Fui, até chegar no centro, e assim que saí da Mauro Ramos pensei “putz, não sei andar de carro pelo centro, como vou achar a rua pra ponte?”, mas fui. Perdi a entrada pra ponte. Não me desesperei, como aconteceria com a antiga eu. Procurei outra rua pra fazer o retorno e consegui chegar na ponte.

Da ponte, passei a entrada de Coqueiros. Mas a nova eu não se abalou novamente, e achou outra entrada — bem mais à frente, bem mais escura, mas familiar, me situei. Andei a via gastronômica inteira e não achei o restaurante. Parei no posto pra procurar no mapa de novo. Segui pra achar um retorno, e: passei o retorno. Mais à frente, achei outro e, quase passando, olhei os espelhos. Estava sozinha na rua, pisei fundo no freio e fiz o retorno. Minha primeira manobra radical da vida.

Passei o restaurante. Fui procurar um bolsão, uma rua ou garagem em que pudesse fazer o retorno. Numa garagem com um canteirinho na frente, engalhei o pára-choque no meio-fio do maldito canteirinho — nem aconteceu nada. A antiga eu teria descido pra ver o estrago. A nova eu deu ré, manobrou e foi. E foi estacionar numa morrebinha na frente do restaurante, plenas 9 da noite, sozinha.

A nova eu chegou no restaurante e achou a aniversariante, e foi recebida de braços abertos e sorriso largo não só pela aniversariante, mas por todos que estavam à mesa. E conversou a noite toda.

Dando tchau, agradeci o convite e a reunião, lamentei ser pouco tempo — teria que ir embora cedo pois teria mais curso cedo no dia seguinte, e qual não foi minha surpresa quando a aniversariante me agradeceu também, dizendo que voltaria pra São Paulo com a mala mais cheia, que tinha convidado apenas quem importava.

Saí com o coração quentinho. Compartilhei essa história com algumas pessoas, e uma delas me disse: “Você chegou, não chegou? Não era isso que importava? Não interessa o caminho, se tá certo ou errado, se é rápido ou longo. O que interessa é chegar.”

E isso me serviu de gás pra principal área da minha vida no momento: minha carreira. Minha profissão é difícil, ninguém conhece por ser muito nova e ainda há um certo preconceito. Mas a minha ideia aqui é mudar o mundo — meio megalomaníaca, eu sei, mas eu não mudaria o mundo sozinha. Minha ideia é juntar forças pra mudar o mundo, e minha profissão é uma ferramenta pra isso.

E tenho andado por uma estrada longa, tortuosa, cheia de retornos. Muitas vezes paro ainda pra olhar o mapa e me situar, ver se não saí muito da minha rota, que nem no caminho da minha casa até o restaurante. E se eu cheguei no restaurante, sei que chego onde eu quero.