miscellaneous de meses sem escrever: ou a clausura da expressão como veneno nocivo pro que há de te fazer feliz

às vezes eu sinto que tenho tanto a dizer que a voz empaca, a mão dói, transtorna o meio até a palavra e ela fica nem pensamento, é a palavra-sentida. e como faz pro outro entender o que não tem forma vocal / ortográfica nem para mim? que a ânsia é de dizer — compartilhar, botar pra fora não pra tirar de mim, porque não há em mim o que eu não aceite e bem receba, mas dividir, ganhar mais um colo, tirar aquele peso que às vezes se torna o saber demais de si e não do outro.

essas distâncias infinitas entre as vozes e o corpo. eu tento: acompanhar pai, mãe, irmão, amigos. tem os dias que fica difícil me acompanhar e eu acabo chorando um pouquinho pra esvaziar o tanque de água. alívio esse não estar chorando sozinha, em publico, da última vez com um hambúrguer vegano numa mão e a outra enxugando os olhos sem borrar o rímel tentando também não colocar o ketchup lambuzado nos dedos, em parte alguma do meu rosto. e falhei.

chorar em publico requer uma mistura de coragem e desapego. porque as pessoas olham curiosas. não, elas não perguntam se podem ajudar. e também o que eu diria? olha, minha mãe perdeu uma amiga querida, não vejo meus cachorros há um bom tempo, meu irmão não está muito feliz, meus melhores amigos estão vivendo processos dolorosos de mudanças grandes em suas vidas, mas eu tô aqui, comendo hambúrguer, há não sei quantos mil quilômetros de distância, vivendo a minha grande mudança, desviando dos meus labirintos baratos, buscando, buscando e buscando não cair em padrões nocivos, velhos conhecidos do esplendor da minha depressão. e eu sou tão feliz por isso e grata.

eu me joguei no mundo e o mundo me cobrou um custo alto com juros e tudo. as cartas de cobrança, minha mãe recebe por telefone ou correio, sei lá a frequência. e eu que reclamava não ter nada do que me era importante, me pego tendo tudo. sendo tudo. e desviando dos labirintos que são ciladas baratas pra estragar o que é bom e me alimenta de amor.

mas como eu abraço alguém com tanta distância? eles, que me conhecem no auge do meu pior e me amam sem questionar, eles que se mostram no auge do seu pior porque juntos a gente tem um abraço bom que ressoa pro mundo que existe colo. existe amor. que estamos todos desviando e encontrando. somos todos rizomas da mesma árvore. e nos jogamos no mundo pra plantar e colher amor.

eu não pretendo uma confissão narcisista com minhas lições espiritualistas como uma verdade pro mundo, mas é o que eu sempre acabo fazendo, pois essa é a minha verdade, e quando eu consigo transcender a paralisia das minhas cordas vocais, a paralisia das minhas articulações, as palavras que querem sair de mim querem dizer que tá tudo bem, a gente chora um pouquinho pra desembaçar os vidros da redoma que a gente mesmo se coloca. e que temos todos os nossos sentidos aguçados de intuição e memória pra quebrar a redoma e respirar mais fresco — e quem não precisa respirar mais fresco?

é quase um pecado pra mim quando me sinto em casa. e eu me sinto em casa. o estar distante machuca, mas quando me pego, lambuzada de ketchup, chorando com um hambúrguer na mão — vegano — e despreocupada com o pra onde ir depois, quando não me importa o bairro em que eu esteja desde que eu esteja em mim, e eu estou, o choro se torna um choro, a tristeza é a tristeza, minhas falhas são minha faxina, meus amigos e família são meu entorno e eu sou só um fiapo de raíz… um rizoma de uma raíz imensa que pulsa vida pralém de continentes, não porque eu faço parte, mas porque junto de todos os outros não existe eu, mas Vida, banhada nessa energia linda, torta, em processo de auto-descoberta, que olha pra si e se ama, olha pro labirinto e o entende. e desvia. pra engrandecer um caminho sem paredes pra escorar, mas com gramado pra deitar e sentir em paz.

Então nessas semanas turbulentas em que não pude estar ou ser minha melhor versão, eu te mantive no coração, porque é ele o acolchoado de mim. meu bordado mais lindo. vermelho e branco, prum rosa bem lindo.

tô aqui, com menos um choro, fortalecendo esse músculo que é ser feliz. e em paz. e apesar de todo truncamento desses dias em que mercúrio andou pra trás, tipo michael jackson, nesse sábado à noite, mais coerente com minhas escolhas, eu vou dormir sentindo gratidão. e imensamente honrada por todos os colos, todos os risos, os choros, nossa literatura barata. eu amo cada pedaço. e agradeço. meu ho’ponopono constante que sugiro a todos:

“Deixa que isso se limpe e purifique, libere e corte todas as memórias, bloqueios, energias e vibrações negativas.
Transmute essas energias indesejáveis em pura luz e assim é.
Então esteja bem e, na medida em que vai se curando, eu te digo que:
Eu sinto muito pelas memórias de dor que compartilho com você.
Te peço perdão por unir meu caminho ao seu para a cura, te agradeço por estar aqui em mim.
Eu te amo por ser quem você é.”
Sinto muito
Me perdoe
Eu te amo
Sou grato