Killmonger e o discurso pan-africanista

Imagem: Marvel Studios/Disney

Pantera Negra é um filme que vai muito além do entretenimento blockbuster. Nele vemos uma série de discussões políticas, sociais e sobre diversidade (as mulheres são uma representação à parte no filme ❤), mas admito que o ponto que mais me chamou a atenção foi a jornada de Erik Killmonger, personagem vivido por Michael B. Jordan.

Já vou avisando que possíveis SPOILERS acontecerão em algumas reflexões que tentarei tecer abaixo!!!

Você foi avisada(o)!!!

B. Jordan já trabalhou com Ryan Coogler, diretor de Pantera Negra, em outros dois longas — igualmente excelentes: Fruitvale Station (2013) e Creed (2015). Coogler sempre se dispõe a colocar o debate racial de maneira sutil, mas perceptível e mostra como questões históricas de exploração do continente africano são necessárias para contar a história do negro e o racismo que a permeia, de acordo com o seu ponto de vista.

Eis que surge um personagem complexo que traz motivações e reflexões que tornam a escolha de “por quem torcer” algo difícil em Pantera Negra. Killmonger, que teve seu pai assassinado por T’Chaka, seu tio, toma para si um estímulo de vingança sobre o desdém de Wakanda com o sofrimento do continente africano desde a exploração europeia no século XVI até os dias atuais. O imperialismo europeu criou uma série de ferramentas feitas para encaixar negros e negras em uma subcasta subjugada à uma falsa supremacia branca que ainda atua de maneira menos explícita do que antes [1]. Ele então entende que todos os negros do mundo, que tem em seu sangue a exploração de seus antepassados, são irmãos e precisam se libertar, mais uma vez, da opressão contra suas liberdades individuais.

Foi aí que eu reconheci algumas questões que tratam não só da posição anticolonial de Killmonger, mas também as claras inspirações do discurso pan-africanista na construção complexa e cheia de camadas do personagem. B. Jordan já disse que se inspirou em Cidade de Deus (2002), filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, para construir seu personagem [2] e isso reforça a ideia de tornar o filme global; Pantera Negra tem esse potencial de quebrar fronteiras geográficas para mostrar negras e negros representados na tela de maneira que escapa somente à representação da escravidão, por exemplo.

O Pan-africanismo foi um movimento de libertação que se tornou destaque no 5º Congresso Pan-africano, realizado em Manchester em outubro de 1945, quando os representantes africanos se tornaram maioria e colocaram a libertação da África colonizada como principal pauta a ser debatida [3]. Nele, seis pontos foram levantados como primordiais para a libertação africana do imperialismo europeu:

1. A emancipação e a total independência dos africanos e dos outros grupos raciais submetidos à dominação das potências europeias, as quais pretendiam exercer, sobre eles, um poder soberano ou um direito de tutela;

2. A revogação imediata de todas as leis raciais e outras leis discriminatórias;

3. A liberdade de expressão, de associação e de reunião, bem como a liberdade de imprensa;

4. A abolição do trabalho forçado e a igualdade de salários para um trabalho equivalente;

5. O direito ao voto e à elegibilidade para todo homem ou mulher com idade a partir de vinte um anos;

6. O acesso de todos os cidadãos à assistência médica, à seguridade social e à educação.

Imagem: História Geral da África, vol. VIII. Quinto Congresso Pan­‑Africano realizado em Manchester, Inglaterra, em outubro de 1945. Da direita para a esquerda, à mesa diretora: Peter Milliard, Sra. Amy Jacques Garvey, o prefeito de Manchester e I. T. A. Wallace­‑Johnson

A partir dessas premissas colocadas no 5º Congresso é impossível não reconhecer alguns pontos que vão ao encontro do discurso de Killmonger em Pantera Negra. Vindo de uma infância assolada pelo encarceramento em massa da população negra mostrado pelo discurso de seu pai N’Jobu quando este se encontra com T’Chaka (vale citar mais uma vez Michelle Alexander aqui. Em 1992, data em que o personagem de Sterling K. Brown está em Oakland, havia um projeto muito claro de progressão do encarceramento em massa nos Estados Unidos através da política de Guerra às Drogas, instaurada na década de 1980 por Ronald Reagan e seu projeto neoliberal. Com o fim da segregação das leis Jim Crow, era necessário criar uma nova ferramenta que mantivesse os negros como subcasta racial. A mídia e o discurso sutilmente racista (aquele que não parece racista, mas é!) tornaram as punições por posse de drogas — crack principalmente — muito mais pesadas nos guetos estadunidenses. George Bush pai era o presidente à época e, durante seu mandato, os incentivos federais na guerra às drogas aumentaram consideravelmente e mudaram as prioridades das polícias locais que buscavam nas comunidades predominantemente negras, seus alvos prioritários) e filho de uma afro-americana e um wakandano vindo da linhagem real, Killmonger toma para si o compromisso de levar a libertação de seus irmãos negros ao redor do planeta.

Capa do álbum “It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back”, Public Enemy (1988). O pôster é um dos objetos presentes no apartamento onde T’Chaka encontra seu irmão N’Jobu

Várias falas do personagem remetem ao discurso pan-africanista de unidade africana: combate à ideia, construída pelo Ocidente, de inferioridade de África e a denúncia dos furtos cometidos por europeus das diversas culturas do continente (como ele mostra brilhantemente na cena do museu britânico) são mostradas de maneira clara na telona. O debate acerca da crueldade do racismo atual, fruto do imperialismo europeu, chegou aos blockbusters estadunidenses e isso é bastante significativo!

Em suma, o quinto Congresso tornou o pan-africanismo uma ideologia de massas, elaborada pelos africanos em seu próprio favor. Inicialmente ideologia reformista e protestante em favor das populações de origem africana, habitantes na América, o pan-africanismo tornara-se uma ideologia nacionalista orientada para a libertação do continente africano. (KODJO & CHANAIWA, 2010, p. 899)

Com a libertação de vários Estados africanos entre 1960 e 1964, surge a Carta de Unidade da OUA (Organização da Unidade Africana) que prega a autodeterminação dos povos, os ideais de liberdade e ajuda mútua e a estruturação da soberania e independência destes Estados. Tudo isso é bem claro na jornada de Killmonger quando ele toma o trono de Wakanda: tendo como única referência a guerra dos colonizadores (e o desejo de tomar para si e para os seus iguais um mundo que lhes foi negado), o personagem constrói a ideia de um império wakandano ao relembrar uma frase sobre a colonização da Grã-Bretanha, muito famosa em fins do século XIX e início do XX: “o sol nunca se põe no império britânico”; para Killmonger, iniciava-se uma era onde o sol agora nunca se poria no império wakandano. A liberdade viria a todos os seus irmãos e irmãs, ao custo de guerras, se necessário fosse.

Ilustração feita pelo cartunista Edward Linley Sambourne, sobre as ambições nunca realizadas de Cecil Rhodes em construir uma linha férrea que ligaria o Cairo, no Egito, ao Cabo, na África do Sul

Na história do filme e dos quadrinhos, Wakanda tem um privilégio em relação aos demais países africanos. O acesso ao vibranium — metal mais precioso e resistente do planeta — possibilitou uma evolução e um progresso inacessíveis a outros países africanos, submetidos à constante exploração do imperialismo capitalista; o país não sofreu as adversidades destrutivas do colonialismo europeu. Killmonger então questiona onde estava Wakanda quando o resto do continente (e os filhos da diáspora africana) sofriam suas mazelas cotidianas. Até que ponto o isolamento wakandano era um ato de preservação ou de total egoísmo?

Mais do que um discurso pan-africanista, Killmonger carrega em si uma motivação anticolonial. A luta contra a exploração sofrida desde o século XVI impediu qualquer possibilidade de autonomia dos diversos povos africanos que ainda hoje são subjugados — e tidos como inferiores em relação ao Ocidente — e sofrem as consequências do imperialismo que retalhou seu continente, suas tradições e sua soberania; com exceção da Etiópia e da Libéria, todo o continente foi dividido e explorado a partir da Conferência de Berlim (1885).

Imagem: Marvel Studios/Disney

Um dos pontos mais legais do filme — e são vários, afinal é o melhor filme de super-heróis já feito — é que o discurso de Killmonger não passa despercebido a T’Challa, o rei de Wakanda e também Pantera Negra. Ele percebe que a autopreservação de seu país foi prejudicial não somente ao continente africano, mas a todos aqueles que poderiam ser ajudados pela tecnologia afrofuturista do reino que ele comanda e tudo que dela provém. A fala final de Killmonger planta no coração de T’Challa uma semente de união entre todos povos do mundo, negros e brancos; lutar contra as injustiças de qualquer natureza é um dever de todos os seres humanos, wakandanos ou não.

Power to the people!

“Me salvar pra quê? Pra viver preso? prefiro que me jogue no oceano, com o resto dos meus antepassados ​​que pularam dos navios, porque sabiam que a morte era melhor do que a escravidão”

PS1: LEIAM O LIVRO DA MICHELLE ALEXANDER!!!! Ele mostra como o encarceramento em massa nos Estados Unidos existe para manter os negros em um status de subcasta racial incapaz de se rebelar contra hegemonia racial branca e seus consequentes privilégios. É um lançamento da Boitempo e é um livrão da porra! Tem esse vídeo do mestre Silvio Luiz de Almeida que dá um bom panorama da obra:

PS2: tem um livro bem básico, no formato perguntas e respostas, que explica a colonização moderna, entre os séculos XVI e XX. Vale muito a pena e ele é bem curtinho: “A colonização explicada a todos”, Marc Ferro. Editora Unesp, 2017.

PS3: a Unesco lançou, em parceria com uma série de intelectuais, 8 volumes que tentam abarcar a história geral da África. Tá tudo disponível em pdf, grátis, nesse link aqui. É leitura pra uma vida inteira, mas vale demais!!!

PS4: só eu achei foda a referência a Oakland, cidade da Califórnia, onde foi fundado o partido dos Panteras Negras, em 1966?

PS5: o site The Mary Sue (acompanhem, é mara!) fez um texto bem bacana que também analisa a postura de Killmonger em Pantera Negra e porque sua revolta é totalmente explicável e compreensível.

PS6: A Marcela Godoy transformou a jornada do Killmonger em uma linda crônica cheia de poesia. Vale a pena dar uma lida!

Shuri, melhor pessoa ❤

Referências bibliográficas

[1] ALEXANDER, Michelle. A nova segregação: racismo e encarceramento em massa. São Paulo: Boitempo, 2017.

[2] http://www.papelpop.com/2018/02/michael-b-jordan-se-inspirou-em-cidade-de-deus-para-fazer-pantera-negra/

[3] Estes congressos aconteceram nas primeiras décadas do século XX e tinham como ideia debater as várias colonizações que aconteceram no continente africano a partir da violenta divisão de África entre os países europeus e também Estados Unidos na Conferência de Berlim. É importante lembrar que este foi um movimento surgiu fora do continente e teve nomes como W.E.B. Dubois, Marcus Garvey, Amy Garvey, Eric Williams, George Padmore, Walter Rodney, Frantz Fanon, Malcolm X, Aimé Césaire, Amílcar Cabral, Abdias Nascimento, Thomas Sankara, entre outros, como seus principais intelectuais. O Pan-africanismo influenciou significantemente líderes das guerras de libertação africanas como Eduardo Mondlane (Moçambique), Jomo Kenyatta (Quênia), Peter Abrahams (África do Sul), Hailé Sellasié (Etiópia), Namdi Azikiwe (Nigéria), Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia) e Kwame Nkrumah (Gana). Para mais informações, conferir KODJO, Edem e CHANAIWA, David. “Pan-africanismo e libertação” In História geral da África, volume VIII. A África desde 1935. Editado por Ali A. Mazrui e Christophe Wondji. Brasília: UNESCO, 2010, p.895–92; e VISENTINI, Paulo Fagundes. As revoluções africanas: Angola, Moçambique e Etiópia. São Paulo: Editora Unesp, 2012.