A Paixão

Hotel Lost — Parra

Nunca fui de escolher livros. Eram eles que me escolhiam. Poderia ser uma capa bonita, um título atrativo. Mas uma coisa é certa, quase nunca leio sinopses. Quando me escolhiam, sabia que a leitura seria rápida e intensa. Lia-os como se apaixonam dois amantes no verão. Durava uma eternidade e acabava feito estrela cadente.

Dessa vez não foi diferente. Era tarde e eu estava sozinha, em busca. Foi então que ele despontou brilhante em meus olhos. Dentre tantos outros que na estante repousavam, eu quis ele. Quer dizer, ele me quis. E foi assim, leitura de uma noite inteira. Intensa. Feito ela, Clarice.

Já logo no epílogo um bilhete com letras cursivas bem trabalhadas. Dava para ver que foi de fato escrito com uma caneta tinteiro.

“Para menininha…”

Antes mesmo de virar a página, a saudade já batia. Há tempos que não o via. Mas sua presença se fez num lapso entre o virar a página e me manter ali naquele bilhete mais um pouquinho. Será que ele sabia que eu não era mais tão menininha? Eu consegui vê-lo escrevendo aquela dedicatória. Era seu livro preferido. Passou a ser o meu também.

E lá se foram duas, doze, vinte, sessenta páginas. Não sabia quem me seduzia mais: as palavras ou a mulher. Sempre gostei muito das duas. Ainda assim, nada me impedia de correr aquelas páginas feito um voo noturno. No início era confuso, mas logo seu pensamento virou meu pensamento. E quando dei por mim, eramos uma.

Quem nunca leu um Clarice Lispector não sabe o que está perdendo. Mais do que um romance, Clarice é quase uma sessão de terapia. É mais. Sua escrita sem nexo funciona como um quebra-cabeça, só clareia e aparece a forma depois de algumas peças encaixadas. E funciona assim também no cérebro, na união dos fatos que vem a ser a memória, e que não nos deixa mais esquecer aquelas palavras.

Grifo as que mais me marcam. Não são poucas. E mesmo que fossem, são fortes o suficiente para não precisarem ser grifadas. Mas é que eu não confio em mim. Muito menos em minha memória gasta. O que mais me coloca perto de ti, Clarice, são os fragmentos, pequenos pedaços de uma vida inteira dedicada à escrita. De pouco em pouco vou me encontrando neles e em sua história.

Se como você, todos pudessem explicar o simples de maneira tão profunda e enraizada, não saberia dizer onde começa o autor e onde termina o personagem. O que mais me encanta são esses pequenos pedaços de história que chamamos de vida. E assim vou, Clarice. Lendo-te, encantando-me, sendo. Simples e ainda assim, tão complexa.