Cara Gente Branca (2017) — Crítica da Primeira Temporada

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Baseada no filme homônimo lançado em 2014, Cara Gente Branca, a nova série da Netflix lançada na sexta-feira passada (28), é uma abordagem ácida — e algumas vezes pedagógica — sobre racismo e as microagressões sofridas pelas minorias raciais no cotidiano. No caso, o foco é dado à experiência afro-americana, mas algumas das situações acabam se aplicando a outras minorias e à outros países também.

Confesso que o filme que inspirou a série não me conquistou. Cara Gente Branca (o filme), assim como a série, procura educar o espectador sobre como o racismo afeta os negros de forma externa e interna; e exemplifica a batalha diária em prol de uma mudança significativa para o futuro. A grande diferença é que a série faz isso com muito mais charme e humor. No filme, o desenvolvimento dos personagens é muito raso e o tom didático fica muito mais óbvio, tornando a experiência maçante.

Os personagens são os mesmos que o do filme, no entanto, o texto da série soube dar mais vida e complexidade a eles, deixando-os evoluir além de meras caricaturas.

Cada episódio é um capítulo dedicado a um personagem específico, os outros atores marcam presença, mas, no entanto, ficam na posição de meros coadjuvantes ao protagonista da vez. Essa escolha possibilita que o espectador compreenda todos os grandes eventos da temporada pelo ponto de vista de cada personagem central.

Samantha White (Logan Browning), a protagonista da versão para o cinema, aparece na série como uma personagem mais completa e ao mesmo tempo cheia de imperfeições. Em um dos episódios mais marcantes dessa primeira temporada, vemos que, por ser miscigenada, Samantha enfrenta problemas diferentes de seus amigos não-miscigenados e, simultaneamente, desfruta de “privilégios” que a sua condição confere.

Para os que ainda estão receosos de assistir a Cara Gente Branca, por causa do teor político da trama, posso assegurá-los de que a série não é só sobre isso; como disse antes, os personagens assemelham-se a pessoas reais, com medos, desejos e problemas que vão além do racismo.

E, mesmo que não tenha conseguido convencê-los, considerem assistir a série apenas pelo privilégio de conhecer o mais recente trabalho do vencedor do Oscar Barry Jenkins, que dirigi o episódio que discute violência policial, que é também o grande divisor de águas dessa temporada.

O grande triunfo de Cara Gente Branca é o equilíbrio entre o humor satírico e as doses de tensão e drama nos momentos chaves dessa primeira temporada. Para uma série curta, de apenas 10 episódios — de aproximadamente 30 minutos, Cara Gente Branca é uma obra que aborda um tema complexo de forma sincera e singular, o que faz valer a pena tirar algumas horas do seu dia para apreciá-la.


Originally published at pipocaeguarana.com on May 5, 2017.