Amanhã

Hoje guardei o meu edredom preferido no armário marfim. Fumei o último cigarro na varanda que fora palco das melancolias nos finais de tarde. Degluti o café recém-feito na xícara branca de borda quebrada.
Fechei a porta da velha casa, da moradia do meu passado, das conquistas e das derrotas. Dei adeus à parede onde estão marcados os meus centímetros com o lápis manchado ao lado porta.
Dói, mas é hora desbravar o desconhecido – de trilhar uma estrada que eu não sei para onde me levará. Deixarei-me guiar em busca da estrela que mais brilha no horizonte.
Não levo malas. Não levo mágoas. Não levo rancores. Levo-me, para me reencontrar.
Permitirei-me sentir o medo do amanhã, o anseio, a esperança, a gratidão, a dúvida. Pois aqui já não pertenço, o hoje já não me completa, a estadia chegou-se ao fim.
Hoje eu quis recomeçar. Estou pronta para o alvorecer.
Abandonei-me no hoje, para nascer no amanhã.
