Primavera

A gaivota pousou à beira-mar, trazendo consigo a brisa do início da (nossa) primavera. Naquela tarde, porém, eu ainda não sabia que em breve você não estaria mais ali.
Se eu soubesse da sua partida, teria gravado cada centímetro do seu rosto numa fotografia congelada no tempo.
Teria buscado, nas nuances do seu toque, algo que lhe fizesse ficar. Com a sua partida não anunciada, não pude notar o seu toque sútil nas minhas mãos, o seu rosto rubro sob o entardecer, as suas covinhas marcantes num quase-sorriso
Ah, meu bem, se eu soubesse do amanhã, teria inalado o seu aroma floral, inspirando-o fundo, até você se fixar em mim e aqui decidir fazer moradia.
Se eu soubesse que o ontem tornaria-se perpétuo, teria sorvido a sua presença como os raios do sol que invadem a minha pele. Assim, as manhãs de domingo não seriam tão árduas, pois o seu encanto permaneceria.
Mas você se foi.
Nesta primavera, meu bem, as flores não desabrocham; o sol não ilumina; a maré é sempre baixa.
Nesta primavera, o meu girassol não tem cor.
