Diários insoniantes

Primeiro tomo

“Companheiro, hoje olhei pelas janelas tentando encontrar uma explicação para todo esse vazio que ecoa do mundo.

Observei incessantemente e só me deparei com meus olhos ofuscados pelo vidro sujo, impregnado pela poeira e, quem sabe, por nós mesmos.

Nestas idas e vindas com as janelas e nossa eterna busca pela completude, resolvi escarafunchar um pouquinho essa poeira, que já era parte de tudo ao nosso redor.

Sabe, o cabra uma vez me disse:

- Não embarque com bagagens que não podes carregar, pequena.

Mas meus ouvidos de nada o consideraram.

Embarcava naquele trem com todas as malas que possuía. Agora me pergunte:

- Para que tudo isso, garota? Estás a levar a casa toda para a vida?

Ora rapaz, não seja tolo! A casa nossa é o mundo, ela nos habita, não o contrário. Portanto, seria inócuo carregar algo tão imaterial, não acha?

- Então, o que tanto carregas?

Esta é justamente a questão! As malas estão vazias, homem! Comigo, carrego malas cheias de sonhos e expectativas, mas vazias. Assim, não correrei o risco de, em momento algum dessa trajetória, perder algo. Quero guardar cada brisa dos locais que passarei, quero guardar cada sabor e cada cheiro das pessoas que encontrarei ao longo do caminho. Vê? Não pode faltar-me espaço.

Senhor, eles não sabem ainda, entretanto, em outras vidas, fui uma espécie de carregadora de bagagens. O peso não caleja mais meus ombros, porém o medo de perder um simples suspiro dessa aventura me provoca um frio na boca do estômago de assustar até o mais valente cangaceiro.

Camarada, eles não sabem ainda, mas guardarei cada um deles comigo.

- Não sejas tola, garota! Falas como se não tivesses pés firmes nesse chão de terra em que pisas! Se te atreves a guardar tudo, como farás quando não suportares o peso de tuas lembranças?

Neste momento, meu velho, saberei exatamente que as minhas lembranças estão maduras o suficiente para dividirem o vagão desse trem comigo. Poderei oferecer a elas um assento, quem sabe até ofereça um café, com pouco açúcar.

E lá estará novamente o vazio latente de minhas bagagens, desejando que seja preenchido mais uma vez.

- Mas se pretendes deixá-las ao seu lado no vagão, por que perderás tempo carregando-as? Mulher, pensas em um pássaro! Se irás aprisioná-lo em uma gaiola para depois soltá-lo, qual o sentido de prolongar o sofrimento?

Ora homem, entenda que nem sempre o sofrimento é algo ruim! Ele mesmo, pessoalmente, já me ensinou demasiado. Pense, o passarinho não se esquecerá daquele momento em que almejou a liberdade, assim como a gaiola estará sempre inutilizável sem um ser para ensinar sobre esse tal sentimento.

Hoje, adentro este trem em busca do meu pássaro e da minha gaiola, mas não se iluda com meu vislumbre. Tenho, em mim, a certeza de que nenhum dos dois caberá em minhas malas por muito tempo. E veja, o mais importante e bonito do mundo, é isto, que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, um tal de senhor Rosa me disse, a verdade é que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.

Acho melhor eu me apressar. Não posso perder meu lugar no vagão.”

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