Caos Paulo

Algumas reflexões sobre São Paulo, bicicletas e mulheres.

Há um tempo atrás, participei da primeira edição do Girls Night Ride, um pedal que reúne exclusivamente mulheres que utilizam um tipo específico de magrela: a bicicleta de roda fixa, cujo objetivo é incentivar mulheres a estarem cada vez mais nas ruas sobre duas rodas, uma vez que nós representamos apenas 23% dos ciclistas no centro e 9% na periferia. Logo, é preciso compreender esse número e as consequências dele, já que alguns estudos demonstram que a ciclo viabilidade de uma cidade é medida pela quantidade de mulheres pedalando nela.

Esta noite (de quarta-feira) foi emblemática para instaurar uma série de reflexões acerca de diferenças de gênero e vulnerabilidade da mulher dentro deste espaço hostil denominado rua, que, assim como todos os espaços sociais, foram construídos com base em valores patriarcais, sem qualquer preocupação com a figura da mulher.

Durante o percurso que realizávamos ao longo da pedalada, não foram poucos os comentários que ouvíamos dos veículos.

As violações variavam, iam desde assobios até abordagens violentas, como, por exemplo, um veículo Gol, que parou perto de mim e de uma amiga e começou a gritar:

“Vai logo! Vai, anda! Anda! Pedala!”

E dessa maneira aproximava seu veículo de nossas frágeis bicicletas e corpos, ali facilmente expostos.

Eu passei a me questionar: “O que se passa na cabeça de um indivíduo que realiza tal ato?” Ora, a relação de forças entre nós já é nitidamente desigual, uma vez que um simples movimento de seu carro seria o suficiente para nos colocar no chão e, provavelmente, ceifar nossas vidas.

Existe um embrutecimento, este que disseminou qualquer resquício de sensibilidade quanto à vida que compartilha a via contigo.

Ou, ainda, como se não bastasse, quando um ônibus nos perseguia por uma parte considerável do caminho, quase atropelando uma outra companheira que pedalava nas ruas, direito nosso TAMBÉM. Fora os comentários que vínhamos ouvindo:

Olha aquela arrombada! É aquela filha da puta, vadia”.

E, finalmente, o mais cômico foi ouvir os comentários de pedestres ou outros grupos de ciclistas majoritariamente masculinos que, quando nos viam, ficavam perplexos! É um grupo de mulheres e, veja só, elas pedalam!

Parecíamos alienígenas que caíram na Terra, um verdade espectro social. Acredito que o estranhamento seja uma reação interessante quando algo claramente foge aos padrões rotineiros.

Nós, mulheres, pedalando nas ruas, ocupando nossos espaços foge tanto ao padrão? Assusta desta maneira?

Ontem me assustei, primeiramente por compreender a vulnerabilidade que ainda temos que resistir no trânsito, um ambiente hostil e machista por natureza, que exige um comportamento igualmente agressivo por parte das mulheres que o ocupam para serem respeitadas, ou, no mínimo, sobreviverem àquela locomoção. Em segundo lugar, por perceber que pelo fato de ser mulher não posso estar na rua da mesma maneira que qualquer um de meus colegas homens. Temos que sofrer com o assédio, com a opressão que coloca nossa integridade física e moral em ameaça todos os dias e, ainda, com o medo incessante de sermos atropeladas, como qualquer ciclista, a única diferença é que nossos medos são potencializados por um simples fator: nosso gênero.

Eu quero estar na rua sobre duas rodas. Quero desbravar as vias, ocupar meus espaços, me locomover da forma que eu optar pela cidade da qual eu também faço parte. Quero saborear todos os momentos de liberdade e vivenciar o caráter emancipatório que a bicicleta possui por essencialidade, sentir o vento no rosto e o suor no corpo. Ser minha própria força propulsora. Deixar-me levar. No entanto, quero respeito. Direito ao meu corpo, à minha vida e, acima de tudo, ao meu gênero que não é inferior. Inferior mesmo é o seu preconceito e o seu motor.