GRAVIDEZ

pequeno continho sobre a difícil arte de criar vidas

Antonio foi um avô amoroso que morreu aos 85 anos com Alzheimer. Não, não quero falar sobre Antonio. Quero falar sobre Sara, uma mulher que está prestes a fazer 40 anos e vive a pressão de ser ou não ser mãe. Ela não quer, jamais quis. Gosta de ser independente, sair por aí e pronto. Eu não sei mais nada sobre ela. Queria que ela fosse uma pessoa leve, meio irresponsável, uma figura que não quer crescer. Com ela posso fazer uma história onde o personagem passa por uma aprendizagem de forma suave e tranquila.

Mas, onde já se viu amadurecimento sem dor? Onde está a dramaticidade deste texto?

Ok, então, vamos falar de Antonio, que é avô da Juliana, ele é negro e veio ainda adolescente do Maranhão para cá. Juliana não conviveu com o pai. Foi Antonio a figura masculina que a levou para as aulas de balé, piano e a ensinou a gostar de cinema. Hummm! Mas, onde está o conflito desta história?

E se a Sara não quiser ter filhos por causa de um trauma de infância? Uma tragédia. A irmã mais nova morreu afogada e ela estava presente. E como este fato vai influenciar a sua não vontade de ser mãe anos e anos mais tarde?

Escrevo com o que tenho. Melhoro as histórias e vou dormir um pouco mais satisfeita. No dia seguinte, reunião de grupo. Leio em voz alta o que escrevi até então. No meio da leitura, minha voz vai enfraquecendo, afinando. Dá para ir embora? Voltar o tempo? Começar de novo? Preciso de mais tempo. Não é simples assim.

Juliana, a neta de Antonio, sempre admirou o avô. Um amor que não daria para traduzir em palavras. Depois do enterro, quando ela chegou do cemitério, mexeu nas fotos e arquivos antigos. Queria estar mais próxima do avô. Encontrou no fundo de um armário uma malinha vermelha. Abriu-a. Eis que ela descobre que em primeiro de abril de 1964, Antonio, capitão de corveta, foi promovido e ficou responsável pela carceragem da ilha das cobras. Juliana fica estarrecida. O homem doce que conhecia participou ativamente do regime militar no golpe de 64. Ela não sabia como absorver o choque. Quem era realmente Antonio? Como ele teria se portado na prisão? O que Juliana faria com aquela informação? Seria muito para absorver depois do enterro? Coitada!

Se Sara não queria ter filhos, por que se incomodaria de chegar aos 40 sem eles? Não teria e pronto. Acontece que ela é casada, com um homem que ama muito e o maior sonho de Daniel é ser pai. E Sara descobriu que ela entrou na pré-menopausa precocemente. Se ainda for ter filhos na vida, a hora é agora. O que ela não conta para ninguém é que não se esquece do dia que a irmã morreu afogada. As imagens da tragédia vão e voltam como quebra-cabeça não resolvido, cada hora aparecem de um jeito. Água, boneca, bolha, falta de ar. No fundo, Sara suspeita que tenha sido a responsável pelo afogamento e consequente morte de Erica, a caçula. O que ela seria capaz de fazer se tivesse um bebê?

Coitada da Sara. Colocá-la nesta situação é terrível.

Um professor me disse uma vez: “não tenha pena do protagonista”. Mas, eu tenho. Ainda assim sigo. Antonio e Sara são peças de um retrato inacabado. Coloquei uma, duas ou três. Muito pouco. Para que um dia eu olhe para eles e em um olhar eu entenda quem eles são, é preciso tempo. É preciso concebê-los mais uma vez, aos poucos engravidar dos hábitos, sentimentos, manias e relações de cada um deles. Apesar da angústia de olhá-los incompletos, é preciso vê-los assim, com pedaços faltando. Dia a dia alimentar cada um, ignorar a incompetência, a crítica e a dor de criá-los. Se eu insistir, talvez, eles nasçam plenos. Mas, a esta altura ainda correm os riscos inevitáveis de se perderem entre letras, num arquivo inacabado ou esquecidos numa gaveta em rascunho de papel.