LPs, K7s e sementes

Estão se olhando de longe há algum tempo. Ela, calça jeans, blusa preta, sorriso fácil. Ele, calça jeans, blusa preta, tatuagem no braço. Não eram propriamente bonitos, mas alguma coisa naquela mulher de aproximadamente 40 anos, chamou atenção daquele homem de aproximadamente 43 anos. Alheios à multidão, que canta e dança perto deles, os dois se estudam sem trilha sonora. Antes que percebam, estão muito próximos um do outro.

“Será que ela tem filhos? Já foi casada?”, pensou ele.

“Ele tem cara de Léo. Léo, pronto. Mesmo que não seja”, pensou ela.

O festival é de rock e apesar da grande quantidade de jovens, rebeldes e ansiosos, estavam serenos. A rebeldia, tanto para ele quanto para ela, é poder estar lá simplesmente. Liberdade sem ácido, viagem de chope e felicidade. Os anos trouxeram, para cada um, uma espécie de tranquilidade. Silenciosamente percebem a maturidade sem deixar que ela incomode o ego. Interagem com o grupo de amigos, sem se perder de vista. Ficam assim por quase três horas, dois shows consecutivos. Quando a próxima banda entra no palco, a corrente invisível que liga os dois se rompe. Ao primeiro acorde, a música envolve Ele e Ela, separadamente, em uma viagem no tempo.

Ela voltou para a cozinha do apartamento, em Brasília, 30 anos antes. Um gravador portátil reproduzia a mesma canção que estava tocando no palco, enquanto sua mãe preparava a lancheira dela e dos irmãos para a escola. Ela amava o ritual, desde a hora que a mãe dava play e pegava a primeira fatia de pão para começar o trabalho. Como era linda a sua mãe! Sanduíche (do que mesmo? ), todinho e maçã. Ela via a mãe executar o ritual diário com amor tão intenso, que sempre comia o lanche com prazer, não importava de que sabor era o sanduíche. Comia tudo, mesmo que fosse de pasta de atum. Enquanto a mãe semeava amor em pastas de atum, ovo, queijo e presunto, cantarolava muitas vezes o refrão que vinha da fita: “Sowing the seeds of love”.

Ele foi transportado para o quarto de sua adolescência, entre posters, discos e camisas de havy metal. Odiava música melosa, mas aquele dia a Aninha levou um LP novo e colocou para tocar na vitrola vermelha. Ele escutou, com pena dos próprios ouvidos. “Música estúpida, mela cueca. Seeds of love, o que! meu negócio é hard core”, Ele pensou. Ia dizer tudo isso para a Aninha e acabar com a tortura… Ah! Mas, ela estava cantando, de olhos fechados, as tais “sementes do amor”.

Enquanto uma estava na cozinha do apartamento em Brasília, vendo sua mãe sorrir, o outro, desajeitado, beijava Aninha sem saber que quase trinta anos mais tarde estaria num show cantando as tais “sementes do amor” por causa de uma pessoa que Ele nunca mais viu. Sentiu saudades da adolescência, da época em que tudo era inconsequente, de quando a vida era para sempre. Sentiu vontade de chorar. No show, Ela chorou. De amor, de dor, de saudade. O vazio insuportável de um sorriso que jamais veria de novo. Com os olhos molhados, nariz vermelho cantou, em homenagem à mãe, o mais alto que pôde: “sowing the seeds of love”. Ao ouvir a voz dela, Ele saiu do seu quarto bagunçado e voltou para o show com os olhos embargados. Sem conseguir se conter, tocou o rosto dela, enxugando-lhe as lágrimas. Ela abriu os olhos. Agora estavam os dois no presente. De cima do palco o cantor dava um conselho para os “jovem de coração” e dizia “soon we will be older”. Já não estavam? Tantas lembranças, tantas saudades, tanta estrada. Ele não sabe a história dela, Ela não sabe nem o nome dele, entenderam que o instante acontece entre os versos de uma música. Estão na mesma sintonia. Muito menos desajeitado do que no passado, ele tomou a iniciativa, e beijou a garota, que já era uma mulher. Sem que soubessem, estavam escrevendo uma história que se tornaria inesquecível vinte anos depois. “Sowing Seeds of love”.

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