Coração não é tão simples quanto se pensa

A bandeira do orgulho transgênero foi criada em agosto de 1999 por Monica Helms e tem cinco listras horizontais: duas listras azuis, duas em cor-de-rosa e uma faixa central branca.

“Azul para meninos, rosa para meninas, branco para quem está em transição e para quem não se sente pertencente a qualquer gênero. Simboliza que não importa a direção do seu voo; ele sempre estará correto!”

Monica Helms, criadora da bandeira de Orgulho Trans

A atriz Viviany Beleboni, de 26 anos, é transexual, espírita e chocou parte dos participantes da 19ª Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) em São Paulo, no dia 7 de junho deste ano. Presa a uma cruz, encenou o sofrimento de Jesus para “representar a agressão e a dor que a comunidade LGBT tem passado”.

O seu protesto cênico contra a homofobia reacendeu novamente o debate sobre a questão de gêneros no Brasil, especialmente sobre a transexualidade e a transfobia. Casos como o de Viviany dividem opiniões e provocam discussões acaloradas entre os mais conservadores.

Protesto contra a homofobia na 19ª Parada do Orgulho LGBT na Avenida Paulista, em São Paulo, em junho de 2015, causou polêmica e reações violentas por parte de alas mais conservadoras da sociedade no Brasil. (Foto: Reuters/João Castellano)

Desde a publicação da foto, capturada pelas lentes de João Castellano, da agência Reuters, a atriz relata ter recebido milhares de ameaças. “Teve gente dizendo que ano que vem vão colocar fogo na parada”, contou ao site de notícias G1.

A polêmica com o símbolo cristão é apenas a ponta do iceberg. Parte do preconceito vivenciado por Viviany naquele episódio denuncia a falta de compreensão da sociedade brasileira quando o assunto é transexualidade. Afinal, quem são travestis? O que é transexual? Ou o correto seria dizer transgênero?

“O preconceito nasce da falta de informação e conhecimento”, explica a presidente da Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (Abrat GLS), Marta Dalla Chiesa. “O ideal seria que isso não precisasse ser ensinado, mas os preconceitos estão arraigados na sociedade”, complementa.

Sexo é biológico, gênero é social

No Brasil, atualmente, ainda não há um consenso sobre as definições. Como todas as coisas que consideramos novas, a desvinculação do gênero e dos órgãos genitais caminha a passos temerosos. Mas caminha. Em seu e-book, a pesquisadora da Universidade de Brasília, Jaqueline Gomes de Jesus, ressalta que, no momento, começamos a aceitar diferenças na identidade e na funcionalidade do indivíduo.

Sexo: Biologicamente falando, resume-se à dicotomia entre homem (masculino) e mulher (feminino) ou macho e fêmea. É o corpo com que o indivíduo nasce e é imediatamente representado — a genitália e os cromossomos quando viemos ao mundo. Quando alguém nasce concomitantemente com os órgãos reprodutores de ambos os sexos, apresentando características sexuais secundárias masculinas e femininas, é considerado intersexo. É o que antes a ciência entendia por hermafrodita.

Identidade de gênero: Nesse ponto, é como o indivíduo se enxerga e se entende. Independentemente do seu sexo biológico, alguém que nasce com o sexo masculino pode se identificar como mulher — sendo considerado mulher transgênero. Assim como um indivíduo que tenha nascido com o sexo feminino pode vir a se definir como homem — um homem transgênero. Quando o sujeito está de acordo com o seu sexo biológico, seria então considerado uma pessoa cisgênero.

Orientação sexual: Está ligada à afetividade, aos sentimentos e interesses. Heterossexuais sentem-se atraídos por pessoas do sexo oposto. Homossexuais (gays e lésbicas) gostam de indivíduos do mesmo sexo. Já os bissexuais tendem a sentir desejo e desenvolver afeto por pessoas de qualquer gênero sexual (masculino e/ou feminino). Todos possuem uma orientação sexual independente da sua identidade sexual ou sexo biológico.

Expressão/papel de gênero: Termo mais novo e ainda não enraizado, refere-se às características visuais de cada indivíduo. É como o gênero é demonstrado através da vestimenta, do comportamento e da interação social. É onde entram crossdressers e transformistas (drag queens ou drag kings) e artistas que aparentam o outro sexo. Uma jovem de sexo biológico feminino, identidade sexual feminina e orientação sexual hétero ainda assim pode desempenhar um papel masculino. Totalmente desvinculado dos padrões, o papel sexual é muitas vezes confundido com a identidade sexual.

Conceitos básicos sobre gênero e sexualidade. O glossário foi concebido pela blogueira Vanessa Ribeiro.

Meu corpo, minhas medidas

Termos como “mudança de sexo” ou “uma mulher presa dentro do corpo de um homem”, expressões geralmente usadas por leigos, se tornaram inapropriados para explicar as transformações identitárias do indivíduo. Simplificando bastante, transexuais lidam de formas diferentes, e em diferentes graus, com a sua identidade de gênero.

Alguns indivíduos se enxergam como diferentes do seu sexo biológico desde o nascimento, outros muito mais tarde. Alguns esperam ansiosos pela cirurgia de redesignação sexual (CRS); outros se sentem confortáveis com um pequeno tratamento hormonal. “É simplista demais esperar colocar todos os transexuais em um patamar, e é necessário que o atendimento a cada um deles respeite esses limites”, afirma o Dr. Walter Koff, professor de urologia da UFRGS e coordenador do Programa de Transtorno da Identidade de Gênero (Protig) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, único na Capital gaúcha a realizar CRS pelo SUS.

O urologista Walter José Koff em entrevista o programa Trajetórias, da TV Câmara de Porto Alegre. (Foto: Reprodução)

Há uma gama infinita de subgrupos e novas definições que surgem a cada nova análise. No que diz respeito aos transexuais, há tanto os que realizam operações quanto aqueles que permanecem com os seus órgãos genitais de nascimento. Considera-se separar os transexuais como aqueles que realizaram a cirurgia e travestis aqueles que preferem permanecer com seus corpos originais. Por outro lado, entende-se que todo homem ou mulher trans o é pela própria reivindicação do gênero.

Acertando os ponteiros

A solução para os transexuais que sentem que a maneira definitiva de se sentirem à vontade consigo mesmos é a intervenção cirúrgica. Desde 2008, a redesignação genital é realizada pelo SUS. A cirurgia, proibida no Brasil até 1997, hoje se tornou alvo de uma imensa lista de espera.

No entanto, a única forma de estender esse atendimento a quem necessita é tratar a transexualidade como patologia. Para tanto, quem deseja submeter-se à cirurgia precisa antes percorrer um longo caminho que comprove sua real necessidade. Os pacientes precisam ser maiores de 21 anos de idade, passar por acompanhamento psicoterápico de pelo menos dois anos, laudo psicológico/psiquiátrico favorável e um diagnóstico de transexualidade.

Segundo dados do Ministério da Saúde, até 2014 foram realizados 6.724 atendimentos ambulatoriais e 243 cirurgias via SUS. O número que é atualizado a cada ano já conta com alguns procedimentos a mais, visto que é crescente a procura dos transexuais pelo tratamento. Independentemente da escolha entre fazer a transição ou não, o tratamento hormonal é necessário tanto para mulheres como homens transexuais. São os hormônios que definem as características mais marcantes de cada gênero e costumam ser o ponto máximo de satisfação, antes mesmo da realização de uma mudança tão radical quanto a redesignação.

Dr. Koff explica que, para as mulheres transexuais (de homem para mulher), a cirurgia de redesignação genital envolve essencialmente a reconstrução dos genitais, embora outros procedimentos possam ocorrer e algumas preferem não fazê-lo. Outro passo importante é a cirurgia de feminilização facial e vocal e o aumento dos seios.

Para homens transexuais (de mulher para homem), é um conjunto de procedimentos que inclui remoção dos seios, reconstrução dos genitais e lipoaspiração. A retirada dos seios é usualmente o único procedimento ao qual se submetem, assim como a histerectomia (remoção do útero) total ou parcial, porque as técnicas de reconstrução genital para homens transexuais ainda não possuem uma qualidade estética e funcional satisfatória. A maioria dos homens trans, quando esperam pela faloplastia, optam por médicos do exterior, como na Tailândia, tida como o paraíso das reconstruções.

Fonte: Mariluza Terra Silveira, coordenadora do Projeto Transexualismo do Hospital das Clínicas da UFG.

É importante ressaltar que, mesmo depois da cirurgia, é preciso continuar seguindo uma medicação controlada que minimiza os danos de uma mudança física, hormonal e psicológica tão grande. O contato com grupos de apoio e adaptação, assim como o acompanhamento de equipes de psicólogos, evita que os pacientes entrem em depressão decorrente da carga de hormônios e até mesmo da pressão social.

“A redesignação sexual deve significar um avanço significativo e positivo na vida daqueles que passam por ela; deve abrir todas as portas que a realização com seu próprio corpo traz”, afirma Symmy Larrat, a primeira travesti a ocupar a função de coordenadora-geral de Promoção dos Direitos LGBT, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.


A vida longe dos armários

Hoje em dia, cada vez mais cedo, os jovens podem questionar a si mesmos e a concepção que o mundo possui acerca deles. É certo que nem sempre a família consegue acompanhar, principalmente quando inseridos numa comunidade mais conservadora e menos favorável a essas mudanças. No entanto, não é isso que fará com que a nova geração volte para o armário.

Um exemplo ilustrativo dessa afirmação é o de Arthur, menino transexual de 14 anos de idade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O garoto nasceu com o sexo biológico feminino, mas desde pequeno não se identificava com as outras meninas. Não gostava de rosa, não queria brincar com bonecas e seguia os outros meninos em brincadeiras que julgava mais divertidas.

Arthur ao lado da mãe, que incentivou o menino a superar os seus conflitos de identidade e assumir a transexualidade. (Foto: Rafa Borges/iGay)

Quando passou a cortar o cabelo curto, sofreu inclusive agressões das colegas na escola, que diziam que devia se comportar como uma menina. Em um ambiente familiar livre de preconceitos, Arthur passou ainda assim por uma fase difícil, em que preferia não conversar. Chegou até a se automutilar. Depois de passar por três psicólogos que não puderam ajudar, os pais conversaram longamente com o rapaz, que assumiu sua identidade de gênero diversa do sexo biológico.

“Quando ele me falou que o segredo era a identidade de gênero, fiquei aliviada. Eu tinha medo que fosse algo ruim, que ele tivesse sido abusado sexualmente", explicou a mãe de Arthur à equipe de reportagem do iGay.

Desde então ele assumiu seu nome social masculino e a única dificuldade vem justamente da escola, que se recusa a aceitar a identificação, mesmo que a lei obrigue. Justamente por isso, os pais entraram com um pedido de troca de nome nos documentos. O pai ainda ressalta que, apesar do Sistema Único de Saúde (SUS) apresentar os programas de atendimento, os postos locais não sabem como proceder. Morando na região de São Paulo, todo atendimento se resume à metrópole.

Arthur também é um exemplo claro de como a sociedade ainda se apega a estereótipos definidos de interação e entendimento. De sexo biológico feminino e identidade de gênero masculina, tem orientação homossexual. Por se identificar como homem e namorar outro homem, ele é considerado gay e isso desperta ainda mais estranheza das pessoas.

“Acham que só quero chamar atenção”, confessa o adolescente, que mesmo assim ressalta receber muito apoio dos amigos.


Não precisa ser definido

O “genderqueer” é um termo difícil à primeira vista, mas chegou para incluir todas as pessoas que não se assumem com um gênero binário, nem somente homem, nem somente mulher. Dentro do genderqueer, que engloba assexuais, bigêneros, pangêneros, existem os genderfluid, que se sentem à vontade sem se vincularem a um gênero específico.

A variação da percepção identitária do indivíduo que não se vincula a nenhum gênero específico, transitando entre os dois polos — masculino e feminino — e experimentando novas configurações e combinações de identidade.

Alguns genderfluid podem se apresentar como majoritariamente homem, majoritariamente mulher, ou nenhum dos dois. Independentes do visual e das peças de roupa, os genderfluid transitam de modo quase fashionista pela moda feminina e masculina e se apresentam cada vez mais como uma forma de identidade definitiva e livre de preconceitos.

Sem um gênero, muitas opiniões

Na primeira abordagem é possível perceber que a conversa será interessante. “Mudança de sexo é um termo errado e ofensivo; o correto é redesignação genital”, explica Ariel sem rodeios, o que também é uma marca pessoal do jovem de apenas 15 anos, morador da cidade de São Paulo.

Nos últimos meses a internet se tornou palco e escola dos jovens que finalmente começam a se encontrar, quebrando as paredes estreitas de uma sociedade ainda tão conservadora. Nesse cenário, Ariel conta como foi sua própria experiência.

Ariel exibe seu visual fashion feminino. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Quando eu conheci um amigo, que é homem trans não binário, ele me abriu muito os olhos e me explicou coisas que eu nunca tinha ouvido falar. Eu comecei a pensar sobre aquilo, e vi que fazia sentido. Foi quando comecei a me identificar como genderfluid, há um ano atrás”, explica.

Palavras até então desconhecidas unem-se ao vocabulário social para dar lugar a todas as identidades. Os gêneros não binários, quando não há uma escolha definitiva, sem a necessidade de se identificar apenas como homem ou mulher, se apresenta também como gênero fluido. Ele não se baseia na imagem física para delimitar identidades, possibilitando aos seus adeptos uma infinita nuance de formas identitárias.

Ariel afirma que pretende fazer a mastectomia, que consiste na retirada das mamas, e o tratamento hormonal, mas não sente necessidade de uma redesignação genital. Perguntado sobre as mudanças nos seus próprios pensamentos depois dessa descoberta de si mesmo, a resposta evidencia seu interesse pelas mudanças sociais necessárias. “Agora eu passo mais parte do meu dia falando sobre transexualidade e eu acho que compreendo melhor as pessoas.”

Essa compreensão também está presente quando fala dos amigos. “Eles confundem bastante, mas me respeitam”, garante. Como muitos dos jovens que tomam a frente nesse momento em que a identidade de gênero ainda não é tão conhecida, Ariel ainda enfrenta algumas resistências em casa. Sobre a reação da mãe, a resposta é simples.

“Não foi muito bem. Eu falei, mas ela não reagiu bem, não me chama pelo nome nem pronomes corretos. Ela não aceita, e não acredita que eu realmente seja um homem. Acho que é mais uma negação dela”, acredita o adolescente. E acrescenta: “Mas meus irmãos levam numa boa”.

Sobre a carteira de nome social, ele demonstra muito interesse. “Sim! Assim que possível já quero conseguir uma. É extremamente humilhante ser tratado por pronomes errados ou pelo nome de registro. Ter que mostrar um documento é uma das piores coisas para um/uma trans”, explica.

Conversando sobre o nome social e sobre as situações embaraçosas que isso pode causar, Ariel relata que as pessoas não ficam encarando ou questionando. O que também pode ser um pouco frustrante, como no caso dele: “Geralmente as pessoas assumem meu gênero e me tratam no feminino”.

Ariel, que participa de muitos grupos e mantém contato com vários trans, reafirma a necessidade de informação e de união, com a certeza de quem batalha pela causa. “Não pode haver um combate ao preconceito sem disseminação de informação”, frisa.

Atualmente, Ariel faz uso do binder (faixas compressoras) para esconder os seios. O uso prolongado pode trazer sérios danos à saúde, mas é a maneira encontrada pelos homens trans antes da mastectomia, ou mesmo aqueles que não sentem necessidade da cirurgia.

Sobre o jovem coração que tem muita coisa a aproveitar da vida, relata: “Estou num relacionamento com uma mulher cis (se reconhece com o mesmo sexo com o qual foi identificada ao nascer), e estou explorando a sexualidade, mas eu me identifico como pansexual”.

Ao final da entrevista, Ariel responde de uma forma que evidencia como ainda é muito necessário que se fale mais a respeito. “Em nome de toda a comunidade trans, obrigado por nos ajudar, por nos escutar e por levar a nossa voz ao mundo”, alegra-se.


TransRevolução

A moda, que passa pelas mudanças ditadas pela nova aceitação do público com seus corpos longe de um padrão, caminha em passos largos na direção das mudanças sociais. Atualmente, a modelo trans Caitlyn Jenner, a mais nova integrante do clã Jenner-Kardashian, ganhou a capa da revista Vanity Fair.

“Estou tão feliz depois de uma longa batalha para viver o meu verdadeiro eu. Bem-vinda ao mundo, Caitlyn. Mal posso esperar que vocês a/me conheçam”, diz a definição do seu perfil no Instagram. (Foto: Reprodução/Vanity Fair)

Em julho, a Make Up for Ever lançou nos Estados Unidos e no Canadá a campanha Seja Ousado, Seja Inesperado, Seja Você, com a modelo Andreja Pejic. A australiana, que nasceu com o sexo masculino e atendia até o começo de 2014 por Andrej, é uma das modelos mais requisitadas da última década. Antes da cirurgia de redesignação sexual, Andreja já apresentava uma incrível beleza andrógina e fotografou para diferentes estilistas e revistas, declarando que vivia entre os gêneros. A modelo já sofreu censura nos Estados Unidos, onde declararam que as suas fotos poderiam sugerir uma mulher fazendo topless.

Andreja Pejic em festa promovida por revista de moda na New York Fashion Week. (Foto: Craig Barritt/Getty Images)

A primeira transexual a posar para uma importante revista foi a brasileira Lea T, escolhida como o rosto da Redken, marca americana de produtos para cabelos. “Nós valorizamos a individualidade de cada um, fazendo com que personalidades como Lea sejam vistas como musas”, declarou Marcela Cuenca, gerente de marketing da Redken, em entrevista à revista Elle.

Primeira modelo transgênero, foi eleita pela Forbes uma das 12 mulheres que mudaram a moda (Foto: Divulgação)