TEXTÍCULO

Estávamos no clube, eu e a minha filha Rafaella, de nove anos. Faltava meia-hora pra começar a peça de teatro e pensei que a biblioteca seria uma boa opção pra passar o tempo. Me sinto bem em bibliotecas. Me agrada a ideia de um lugar onde o silêncio é sempre confortável, mesmo que se esteja acompanhado; me agrada a sensação de paz contida na certeza de que ninguém vai chegar puxando uma conversinha furada, comentando o tempo, a notícia do jornal, o jogo de ontem, ou outra bobeira qualquer, mesmo em meio a um grupo numeroso de estranhos (ou de temíveis “conhecidos íntimos”). E ao mergulhar neste mar da tranquilidade, me agrada ainda mais a possibilidade de embarcar em alguma das incontáveis obras literárias, pacientemente ancoradas nas estantes, e partir sem saber pra onde, em jornadas épicas, românticas, trágicas, cômicas…

Mas quem tem filhos nesta idade sabe que não existe porto seguro quando se trata de manter uma criança quieta por mais de 15 segundos, sem que ela esteja em sono profundo ou sob efeito de uma anestesia geral.

A minha já entrou demandando, a plenos pulmõezinhos: 
“Papai, escolhe um livro pra mim?”

Recebo os primeiros olhares reprobatórios e repasso a bronca: 
“Shhhh…Rafaella, aqui tem que falar baixo!”

“Mas, eu já estou falando o mais baixo que dá.”

Não sei o que acontece com as cordas vocais infantis mas o fato é que criança não sabe cochichar. Elas até tentam sussurrar só que, por alguma razão, o som sai mais alto do que a voz normal, tipo um berro sussurrado.

Mas como é sofrível escolher livro para criança nesta idade. Elas se acham muito maduras para literatura infantil e ainda não estão preparadas para as obras infanto-juvenis, já que não gostam de textos longos com letras pequenas e não entendem construções gramaticais um pouco mais elaboradas. Como eu queria meia-horinha de sossego pra poder me concentrar no meu Kindle, lá fui eu fazer a curadoria.

Quase desanimando entre os Diários de um Banana, Querido diário Otário, Diário de um Zumbi do Minecraft e A Princesa na Balada, encontrei um livro de mitologia que me pareceu apropriado. Ela já tinha começado a ler e gostado de um que a avó tinha dado, Mitologia para crianças. Este em questão ficava na seção a partir de 14 anos, mas não deveria haver nenhum problema.

Sentamos em uma mesa coletiva, ela à minha frente. Começou a ler com raro interesse e parecia estar curtindo. Passaram-se inéditos cinco minutos de foco total. Eu custava a acreditar. Fui relaxando e saboreando minha leitura. Até que sou interrompido quando ela pergunta, em alto e bom som, esquecendo, na empolgação da curiosidade, de sequer tentar modular o volume da voz.

“Papai, o que são testículos?”

Por um breve instante, o mundo parou. Todos os holofotes se voltaram para nós dois. Me senti no palco do Rock in Rio, mas num patamar de silêncio que só poderia ser medido em decibéis negativos.

A naturalidade com que ela tinha perguntado e com a qual olhava no fundo dos meus olhos, esperando sem piscar pela resposta pra retomar sua leitura, era comovente. Por trás da minha cara de imbecil, um turbilhão de sentimentos: vontade de gargalhar, um considerável constrangimento e, o mais forte de todos: um amor transbordante por aquela leitorazinha que, se pudesse ser convertido em palavras, encheria todas as páginas de todos os livros daquela biblioteca. E logo bateu também um medo, um baita medo do inevitável dia em que aquela inocência iria desaparecer.

“Como assim, filha? Qual o contexto?”, foi o que deu pra improvisar, frustrando a expectativa da minha dissimulada plateia por uma resposta mais técnica. Naquele momento, não havia para aqueles sádicos enxeridos, autor ou história da literatura universal mais interessante do que a trágica saia justa de um pobre homem encabulado.

“Está escrito que o filho cortou os testículos do pai com uma foice e jogou no mar.”

Aaaaaiiii, Cronos Maldito! Caçula dos Titãs, traiçoeiro filho de Gaia e Urano, a Terra e o Céu, separados pela sua crueldade. Maldito Cronos, invencível deus do tempo, que governa os destinos e a tudo devora. Não bastasse haver impiedosamente castrado o próprio pai, retornava agora, incontáveis eras depois, para torturar a vida de um outro pai, que só queria um pouco de sossego antes de ser obrigado a assistir a duas horas de uma montagem amadora de Shrek, o Musical.

Maldito Cronos, que fará a Rafaella crescer e parar de me fazer perguntas encantadoras como esta. E fará um dia ela não querer me perguntar mais nada, por achar que já sabe mais do que eu, até o dia não muito distante em que de fato vai saber. Cronos maldito, exijo que me deixe, eternamente, ser o pai que tem todas as respostas. Exijo que me deixe, eternamente, ser o pai sem respostas. Exijo que me deixe em paz! Ou eu juro que lhe arranco os testículos.