Barão Von Steiger

Texto publicado por Ramiro Berbert de Castro, no Jornal Dom Casmurro de 06/01/1940. Fonte Biblioteca Nacional.

Transcrito por Roberto Carlos Rodrigues.

“No ano de 1846, precisamente a 8 de novembro, segundo anotações da Suíça na Baia, aportava a capital do Estado, passageiro do vapor “Josephine”, embarcado em Havre (França) o tenente da guarnição de Rei da Prússia. Ferdinand Von Steiger, nascido em 15 de junho de 1825 em Berne (Suíça). Era filho do coronel do exército Albert Von Steiger, de Musssingen, (Suíça) e de D. Carolina Mau Stieger. Residia em Colônia (Alemanha) quando resolveu seguir para o Brasil, obtendo passaporte do governo prussiano a 11 de novembro de 1846.

Da capital baiana dirigiu-se a Ilhéus, fixando a sua residência nesse município, adquirindo aí, por comprar, de um colono suíço, uma propriedade agrícola, a Fazenda Vitória, à margem do Rio Cachoeira, pouco acima do arraial do Banco.

Desenvolveu a sus propriedade agrícola, construiu um grande solar avarandado, confortável e de atraente aspecto.

Casou-se mais tarde com uma ilheensse, d. Amélia de Sá Bithencourt e Câmara, filha de Egydio Luiz de Sá Bithencourt e Câmara, fidalgo, proprietário da Fazenda Esperança, à margem do Rio Itaípe, cavalheiro condecorado com a medalha da Restauração da Baia pela Independência, e tenente-coronel, chefe do Batalhão de Guardas Nacionais do município da Vila de S. Jorge dos Ilhéus, e de sua esposa D. Ritta Constança de Sá Bithencourt e Câmara.

Após o seu consórcio no Brasil, recebeu o título de Barão.
 Von Steiger era dotado de viva inteligência, instruído e conhecedor de várias línguas, falando corretamente o alemão, inglês, francês e português. Fez de sua aprazível morada em Ilhéus, um centro de civilização. Todas as notabilidades estrangeiras que visitavam o antigo município do sul baiano encontravam carinhosa acolhida na Fazenda Vitória.

O príncipe Maximiliano, Arquiduque d’Áustria, depois imperador do México, foi seu hóspede, com toda sua ilustre comitiva, e janeiro de 1860. Com o Barão Von Steiger e o germânico Henrique Berbert, o arquiduque conheceu o interior de Ilhéus, fazendo estudos de botânica e, ao mesmo tempo, caçando e pescando.
 Assim teve o nobre austríaco a ocasião de penetrar nas matas virgens do nosso litoral, passando mesmo alguns dias em um rancho improvisado, que se levantou em meio da exuberante flora tropical da região.

Em um dos volumes de sua obra, com o título Matto Virgem, publicada em alemão, descreve minuciosamente a excursão, tendo especial referência a Von Steiger e Henrique Berbert.

Outras obras, publicadas na Suíça e na Alemanha, por vários escritores e cientistas, que visitaram Ilhéus, aludem a Fazenda Vitória e ao seu ilustre proprietário, Heinrich Wahra, médico e naturalista, em sua notável obra, Botanische Ergeniasse, publicada em 1960, faz referências, na introdução da mesma, ao fidalgo suíço Von Steiger e o arquiduque D’Áustria, cuja comitiva fazia parte.

O Barão Von Steiger exerceu influência predominantes no meio em que se habitou a viver, instalado em uma magnífica propriedade agrícola, naquelas terras dadivosas. Vinculou-se ao solo ilheenses, fez relações e tonou-se um grande amigo dos agricultores, que encontravam nele um conselheiro amável. Era generoso e querido. As portas de sua residência estavam sempre franqueadas à gente simples e bôa de Ilhéus, bem como aos homens de cultura e de alta linhagem que aportavam à Vila, que havia de ser, mas tarde, um dos principais núcleos de civilização e de progresso em nossa terra. Deixou Ferdinand Von Steiger a seguinte prole:

1 — Fernando Steiger Junior — nascido em 10 de 1854. Foi educado na Suíça. Falava alemão, francês e português. Casou-se neste país com sua prima Martha, moça de fina educação e virtudes.

Regressando a Ilhéus, instalou-se nas matas das Alegrias e, dentro de pouco temo, fundou uma propriedade modelo, plantando cacau e cereais. Vizinha da Fazenda Paraíso de meu pai, Ramiro Castro, de quem fora sempre amigo, prosperou e ainda hoje, é uma das mais bem organizadas do Município de Ilhéus.

Faleceu em 28 de Junho de 1823, sendo sepultado ao lado de seu pai, no Cemitério os Estrangeiros, no CAMPO Santo, da capital baiana. Sua viúva, anos depois, contraiu novas núpcias com um alemão ar. Hermano Lussenhop, de instrução inferior e sem descortino comercial.

Com o falecimento de D. Martha, em 11 de novembro de 1939, o ar. Hermano Lussenhop terminado o inventário, vendeu a tradicional fazenda e prédios na cidade de Ilhéus retirando-se para o estrangeiro afim de gozar de uma herança que lhe veio como uma dádiva dos céus.

2 — Cherabino Steiger — Nascido em 20 de julho de 1854. Era engenheiro civil, trabalhando muito tempo como técnico da Estrada de Ferro Central do Brasil, onde deixou uma magnífica tradição. Morreu solteiro.

3 — Aberto Steiger — nascido em 6 de dezembro de 1858. Era agricultor. Morreu solteiro.

4 — Libuça Streiger — nascida em 23 de junho de 1859. Viúva do comerciante João Adami. Não deixou descendentes.

5 — Constansa Steiger — nascida em 10 de dezembro de 1860. É viúva do funcionário público Luis Magalhães Castro Junior, que deixou diversos filhos.

6 — Júlia Steiger — nascida em 3 de agosto de 1862. É viúva do agricultor UIysses de Sá Bithencourt e Câmara.

7- Eugênia Steiger — nascida em 13 de maio de 1864. É viúva de Hermano Braem, que foi gerente da firma C. F. Keller & Cia, e depois sócio de Braem, Wildeberger % Cia, de 1900 a 1902. 
 Faleceu na Suíça, onde fora a passeio em 1 de janeiro de 1903.

8 — Maximiliano Steiger — nascido em 23 de junho de 1866.
 Pretendia o Barão Von Steiger ir ao México, devendo ser, aí, batizado pelo imperador Maximiliano I , e jovem a quem dera o nome do seu grande amigo. Não realizou o seu intento por ter em dezembro daquele ano, falecido o pequeno Maximiliano, vítima de meningite, o último dos seus descendentes diretos.

Sua esposa d. Amélia de Sá Bithencourt e Câmara Steiger, nascida em 4 de março de 1834, faleceu em Ilhéus em 1889, precisamente a 10 de março, foi sepultada no interior da Igreja do Rio Santana, construída pelos padres do Colégio São Antão de Lisboa, em 1573, onde tinham também os padres do mesmo colégio uma excelente casa e uma próspera fazenda com 300 escravos.

Sete anos após, a 13 de maio de 1887, falecia na baia o Barão Ferdinand Von Steiger, tendo sido sepultado no cemitério dos Estrangeiros, onde lhe foi soerguido um mausoléu pelos filhos.”

Sobre o autor do texto — Ramiro Berbert de Castro era Médico, Odontólogo, Advogado, Agricultor e Pecuarista e deputado estadual. Nasceu em Ilhéus em 06 de Junho de 1894. Faleceu em 24 de Outubro de 1966. Era filho de Ramiro Ildefonso de Araújo Castro e Libuça Berbert de Castro. Foi casado com Elvira Augusta de Carvalho Brito e Castro.