A vida e os outros #1
A fragilidade ante a beleza.
Uma mulher como tantas outras; que estupidez, não há duas mulheres iguais. Aceitando o retumbante falhanço que foi a frase precedente, podemos prosseguir: os meus olhos passeavam furiosamente na folha seguindo de perto, como um capataz, o que a minha mão estava escrevinhando. Ela inclinou-se, a mulher, os segundos ganharam tempo, aqueles raros momentos de atracção (humana, evidentemente) que os poetas tomam as rédeas da teoria da relatividade e a moldam à sua maneira. Já a inclinação estava consumada quando o par — olhos e mão — que eu apelidara outrora perfeito, se desconjuntara irremediavelmente. Os inseguros olhos caíram no decote da mulher procurando uma espécie de abrigo, a mão, com os olhos nos olhos, seguia a folha como se esta fosse infinita, a escrita há muito que se perdera no vazio; só acalmou (a mão), porém, quando da mesa veio um barulho incriminatório. A mão sossegou da escrita. As suas múltiplas posições denunciavam ainda assim o meu desconforto. A mulher bem apetrechada de seios, de volumosos seios, matematicamente perfeitos, disse-me delicadamente: «senhor (arre, estou mesmo a envelhecer), o que vai ser?» E eu, falando na língua dos seios, surdo de palavras, esquecendo o propósito da boca nada consegui dizer. Dava-te um beijo agora — não disse. Levamos uma vida a tentar dar uma certa consistência à nossa postura e vem um par de mamas e estraga tudo. Aos poucos, apareceu — mas que confusão ia na minha cabeça, dezenas de filmes realizei ali, naquele instante, era realizador, actor e guionista e o mais — um certo pensamento de normalidade, a postura-certa-no-momento-certo.
Nisto tinha passado somente dez segundos, o decote da melhor (Mulher) continuava a conversar com o meu olhar.
— Desculpe, estava a pensar noutra coisa. (as palavras certas nunca chegam nas alturas certas) Estava com a cabeça presa numas poucas frases que não querem sair.
Ela sorriu, não sei se do que disse, se da minha fragilidade masculina.
Bastou uma simples inclinação para que a criatividade fosse relegada para segundo plano, pensei posteriormente. O sangue só pode estar numa das cabeças. Ou, sendo homem, um hino à erecção.