
Acabaram-se as passeatas pelo mundo
Quando a habitamos muito tempo
em silêncio a noite nem por isso
fica apta a ocultar os nomes ásperos
contradizer o estatuto de bebedouro de feras
em que se tornou o corpo do poeta
das amadas decantadas à força de ser espremido
o corpo pela tristeza
a noite denuncia às estrelas
luzes distantes e algumas delas póstumas
a fraqueza da carne, a fraqueza da carne, oh, a fraqueza da carne
intensifica-a até, mete isto bem na tua cabeça,
até todas as frases soarem a gritos aguçados e perfurantes
a vidas espezinhadas por deuses inebriados.
Acabaram-se as passeatas pelo mundo
em busca de alguma cor, de algum oráculo
com o qual possamos adquirir vantagem mínima
na próxima batalha
enfim, algum ritual que nos amadureça.
Acabaram-se as noites bastas vezes distintas
os corredores principescamente adornados de primavera
as ilusões de que o amanhã nos banqueteará
com a maior sorte do mundo.
Temos pouco e o pouco que temos
mal dá para construir uma periclitante
maquete do Paraíso.
