Chega a ser embaraçoso — Súmula

Roberto Gamito

Chega a ser embaraçoso perceber o que alcancei durante estes 32 anos de existência, que, à força de me perder com uma eficácia perturbadora, se tornaram labirínticos. Guilhotinei todos os capítulos da minha vida. Abortados os inícios, sobrou-me o vazio. Resta-me o consolo de saber, graças à física teórica, que o Vazio é uma palavra mentirosa, no qual dormem forças que, para simplificar, diríamos misteriosas. 
Como diz o meu poeta obscuro, nunca sabemos o que basta. Talvez…Um nome com ânsias de relampejar. Um momento que, à semelhança de uma semente, se pode revelar in extremis rúptil. Um momento que esconde dentro de si um outro momento, intensíssimo, assaz inconveniente para as Parcas que tanto labutaram para me dar um Destino digno de um suicida. É preciso acreditar que ainda anda por aí um desses momentos. Em meu favor, há duas ou três frases que me poderiam socorrer em alturas de maior aflição, que funcionariam como paliativos. Mover-me nos interstícios entre o livre-arbítrio e o Destino já seria porreiro. Pouco interessa quais são. Interessa, se é que isso interessa para alguma coisa, é que continuo com fome. E essas custosas peregrinações a cumes e precipícios ensinaram-me umas coisinhas.

Aproximadamente nada: eis o somatório das minhas conquistas. Chega a ser embaraçoso. Porém continuo com fome.