Marreta canora

Talvez seja praticamente impossível esquivar-me ao equívoco. Por conseguinte, há que pegar nas coisas com distância, sem querer sugar-lhes o sentido até ao tutano. Pode dar-se o caso de serem, quando muito, parentes pobres das miragens, subterfúgios para maquilhar o refugo. A folha, esse terreno intermitentemente fértil no qual semeamos um não sei quê à espera que dele brote o mapa do paraíso, oferece-me durante um exercício credível de despojamento um exército numeroso de febres. Aqui e ali deixo cair as máscaras (recupero outras) mas no entretanto há um instante em que a nova ainda não ocultou a face e a velha já lá não está. Esses segundos escassos em que o rosto é qualquer coisa de nu, ou próxima disso, concedem-me uma espécie de valentia frágil. A mão progride numa trajectória descendente, primeiro como falcão, depois, mais ciente das suas capacidades, como marreta canora. Uma e outra vez até perceber, de uma vez por todas, o que há de inquebrantável no quebrável.

Mas não foi isso que me trouxe aqui. O que me trouxe aqui foi um nome. Desconfio que o mesmo de sempre. Volta e meia imagino-me diante da folha 
um ser todos mãos a orbitar em torno do nada cegante

um branco (por vezes noite) que vai além dos limites ínfimos da folha
a turbilhonar a farejar sangue 
como um tubarão paciente, convicto de que é mestre no ofício de matar.

É então que chega um nome, um princípio de palavra, um silêncio entre duas bocas que se atraem insanamente
e a mão toda tubarão arranca do mundo do infinitamente pequeno 
e ruma de chofre para o mundo do infinitamente grande.

Ainda não há equações que expliquem devidamente o que a palavra Amor
pode fazer à mão do poeta.