Meias-frases

Roberto Gamito

Ignoro o que dizer
às memórias distantes 
que me cheguem desfiguradas 
como parentes distantes
à procura de meia-dúzia de palavras
puídas do uso, do modo utilitário 
e maquinal como as proferimos
sem dar conta que nada dizemos realmente.

Um “como estás?” e desligar 
de seguida, sem escutar a resposta, 
pois, atafulhada de hipóteses, 
a cabeça não sabe dar seguimento 
à conversa e encrava, obsoleta,
com ensaios de raciocínios, meias-frases, suspiros e 
coisas que recorremos a fim de tornar 
o silêncio menos espesso, menos doloroso. Atafulhamos o silêncio de tralha.

Ignoro o que dizer 
quando as memórias 
se abeiram de mim.
Amiudadas vezes fico-me
por um ‘cá estamos’ 
e desconfio que, apesar da economia, 
nunca declarei nada tão acertado.