no auge do grito do escravo

Gestos baços, múltiplos e lentos, imperceptíveis, os da estátua
auscultando sem método o interior do bloco de granito.
A forma surge, quando surge, à tona das trevas
brotando silenciosamente do informe.

Semblante plástico
de modo a servir, com pose de condenado
as necessidades do dia. Plasticidade servil.

A personalidade 
um termo movediço, pouco confiável
pode ser hoje qualquer coisa
com o engodo certo.

Patrões dançam, embriagados em seus ritos,
ao som do chicote 
que labuta noite e dia sem descanso

e, no auge do grito do escravo, do novo escravo
aquieta-se e adormece.
Mói a carne e os ossos
aproveitando todas as componentes do escravo 
carne, alma, ossos, sonhos, esperma
para aumentar a sua margem de lucro 
para aumentar a distância entre este mundo 
e o outro

o ideal.