O inferno da depressão

Chega a saber a abismo
um nome que nos apresenta o amor
e de seguida a depressão
chega a parecer uma mnemónica caduca o mapa
um artifício no qual mantemos a nossa desorientação
por momentos ocupada
por vezes alcançamos certos troços do labirinto
para lá dos domínios da razão
em que as paredes se afunilam
aí as coisas complicam-se aguçadamente
as palavras nossas exibem-se rombas ineficazes
dolorosamente risíveis
repito: as paredes afunilam-se verdadeiramente
ou é apenas uma manifestação da perspectiva não há como saber
no fundo uma luz ou a sede de sangue do minotauro
nas paredes há centúrias profecias que clarificam o destino
que tentas em vão rasurar com o auxílio do sangue e da faca as profecias regressam
à tona do sangue
se eram ambíguas até então
deixam de o ser. Consentem a sua decifração.
no fundo sabes
na ausência de um beijo vulcânico
a Morte toma o lugar do Amor.
no fundo sabes
que é impossível fugir ao inferno da depressão
pois, segundo os mitos, só Deus torna a palavra inescapável
permeável à carne
no fundo sabes que o Inferno é uma palavra demasiado genérica
para descrever os caminhos por onde erras
enquanto acumulas eclipses nos olhos
necessitarias dos níveis de Xibalba, digamos, o Inferno dos Maias, para esclarecer aos outros
que há vários tons de noite. Cada nível possui os seus perigos e as suas feras famintas os seus rituais de passagem.
No fundo sabes
que não é tanto a questão se Deus está vivo ou morto
porque a certa altura compreendes fundamente que tanto para Ele como para o seu primeiro filho, o Tempo
a morte e a vida são dois lados da mesma palavra
sinónimos que os homens, em virtude do vício de achar
que o bem e o mal são duas coisas imiscíveis, renegam.
Os deuses antigos, por outro lado,
precisavam de sangue
pois certa vez tomaram o mundo dos homens
num trago e ficaram embaçados.
Agarra com unhas e dentes as palavras que iluminam
rasga a noite com a luz que delas jorra
senta-te e sorri demoradamente
não há outro sítio para onde ir. Todos os caminhos foram já trilhados e nenhum deles nos trouxe a felicidade.
Melhor: segura, aprende isto na vida ou nos livros,
um nome de mulher nos lábios.
Não há outra forma de escapar
(ainda que provisoriamente)
ao Inferno da depressão.
