Pensamos nas bocas arpoadas pela mentira

Chegando o ocaso
pensamos nas bocas arpoadas pela mentira
no rol de fiascos colossal e a crescer
trechos de memória avulsos
cobertos pelas últimas cores do dia.

Asseveram-nos que o fim, meus amigos 
foi adiado, vamos supor que essa sempre foi a verdade
há preparativos que não se cumpriram 
pessoas que se atrasaram 
estrelas que se fundiram 
comidas que azedaram
flores que murcharam 
e que de seguida foram transladadas para um poema.

Jogam-se as últimas tentativas
afinam-se pontarias
contra o vidro que, ao estilhaçar-se 
soltará um bando de minúsculos narcisos.

Afiançam-nos que as Parcas 
ainda estão no ramo, 
mas noutra árvore
enveredaram por um negócio mais lucrativo.

Como pretendiam aumentar as margens, como boas empreendedoras que são (até fazem uso desse mesmo epíteto: empreendedoras, ah, sacanas, velhacas até ao tutano), pesquisaram e encontraram linhas assaz mais baratas. Ora, como o senso comum nos alerta, o barato sai caro, e, como consequência, as linhas já não nos dão as garantias de antigamente. Resultado: morre-se de um momento para o outro, derivado à fraca qualidade das linhas. Em suma: o destino está nas mãos do lucro. 
Outra achega, e isto ignoro se o devia contar, uma vez que posso arranjar sérios problemas com deidades poderosas, as Parcas, mas cá vai: há uma certa imprevisibilidade na duração da corda. Ou seja: estamos, graças à linha de segunda categoria, mais perto do livre-arbítrio.