Sempre fui péssimo

Roberto Gamito

Sempre fui péssimo 
a esconder o meu apreço por começos inseguros 
chamados amiudadas vezes vacilos imponentes
pela forma como exibem, nítida, a fronteira 
entre uma miríade de possibilidades 
como se o tudo e o nada, estimulados, partilhassem provisoriamente as mesmas coordenadas. O infinito aprisionado num momento-ponto 
à beira da inflação.

Agora, mais maduro
quase podre
tenho a firmeza necessária para, esquecida a paisagem atravancada de ecos
antologiar as hesitações 
como se o tudo e o nada fossem quânticos 
ou seja, o nada não é bem nada
e o tudo não é bem tudo 
há margem, como assevera a física teórica, para o nada se tornar infinito. Basta para isso retirarmos 
o observador da equação. Isso é a Ciência, porém não foi isso que me trouxe cá, ao poema, a esta ilhota de sílabas trementes prestes a ser engolida pelas rasuras do tempo.

Maravilho-me, e isto sou eu a olhar para trás, com aquele momento exacto 
em que o homem e a mulher cruzam olhares
vamos supor que eu e tu
e o tudo e nada são a mesma coisa
nada 
menos que infinito.

Até que um deles decide falar. E estraga tudo.