Façanha do Defensor é lembrada 40 anos depois nos muros de Montevidéu

La vuelta olímpica al revés

Os anos 70 talvez tenham sido um dos períodos mais obscuros da história da América do Sul. Mas em 1976, uma façanha protagonizada por um pequeno time de futebol do Uruguai, um “cuadro chico”, como dizem em Montevidéu, serviu como uma brisa em tempos tão sufocantes. Não foi apenas um ato de rebeldia contra o status quo do futebol local, mas, também, um alento no momento extremamente tenso pelo qual o país passava.

POR ROBERTO JARDIM
bobgarden@gmail.com
@bobgarden
Fotos: Roberto Jardim e acervo Defensor Sporting Club

Repressão e prisões arbitrárias. Medo e tortura. Desaparecimentos e mortes. O cotidiano no Cone Sul, entre meados dos anos 50 e começo dos 80, não era cinza apenas nos dias nublados. Muito menos frio somente no outono e no inverno. Tudo por conta das ditaduras que tomaram conta de Paraguai (1954–1989), Brasil (1964–1985), Uruguai (1973–1985), Chile (1973–1990) e Argentina (1976–1983), e transformaram aquele período em uma época de chumbo.

Nesse cenário, o Uruguai teve, em 1976, um dos piores momentos da sua história. Vivendo então uma ditadura civil-militar, o país cisplatino passou, naquele ano, pelo recrudescimento do regime. O presidente Juan María Bordaberry, que dividia o governo com as Forças Armadas, acabaria deposto pelos milicos. Com os militares assumindo de vez o poder, o terror de Estado alcançaria seu auge, com ações dentro e fora do país — inclusive com execução de opositores — e o surgimento da Operação Condor, só aumentando o clima tenso no país.

Uma brisa rebelde, porém, soprava pelos lados da Rambla Presidente Wilson, no Parque Rodó, em Montevidéu. Ali, no acanhado Estádio Luis Franzini, cancha do então Club Atlético Defensor — em 1991 o C.A. Defensor se uniu ao Sporting Club e ganhou o novo nome, Defensor Sporting Club –, uma ruptura no futebol charrua iria embalar sonhos de liberdade por todo o país a partir de uma campanha histórica, que resultaria no primeiro título nacional de um clube que não fosse Nacional ou Peñarol, os dois grandes do Uruguai.

Como no Brasil, os grandes jornais uruguaios não dão muito espaço para os times pequenos ou para os “cuadros chicos”. Assim, o aniversário de 40 anos da façanha do Tuerto, apelido do Defensor, não ganhou nem uma linha nos diários de Montevidéu nos últimos dias de julho. Nem mesmo no dia 25, data que marca a conquista. Nas suas edições impressas, El País e El Observador nem sequer anunciaram o jantar em homenagem aos campeões. Nas suas páginas na internet, nada além de um registro formal.

Por isso, essa história é pouco conhecida não só nas terras do general José Artigas, que certamente teria orgulho do feito violeta. Mesmo assim, recentemente, o jornalista uruguaio Santiago Díaz lançou o livro Una Vuelta a la Historia Defensor del 76: memorias de una hazaña en dictadura, uma obra que reconta a trajetória violeta jogo a jogo, contextualizando semana após semana com o que acontecia no Uruguai, na América do Sul e no mundo.

Com base nesse desconhecimento, vamos contar a história do ano que mudou o futebol uruguaio, usando como base depoimentos de ex-jogadores e torcedores que acompanharam a campanha. Além disso, nos utilizamos do texto de Díaz e do livro Defensor un Siglo de Pasión Violeta, de Luis Prats, e de pesquisas de reportagens da época, além de arquivos disponíveis na internet.

Antes de partirmos para a história completa, vale contar que em 25 de julho de 1976, ao vencer o Rentistas por 2 a 1, no Estádio Luis Franzini, o Defensor se tornaria o primeiro time pequeno a conquistar o Campeonato Uruguaio desde a profissionalização, em 1932. Desde aquela época, apenas Nacional (20 vezes) e Peñarol (23) haviam sido campeões.

Os uruguaios criaram a volta olímpica. O Defensor, a reverteu

Para celebrar a conquista após a última vitória, outra quebra de tradição: no lugar de fazer a volta olímpica — aliás, criada pela seleção uruguaia nos Jogos Olímpicos de 1924 –, o time correu para o lado contrário. O ato ficou conhecido como “la vuelta olímpica ao revés” e virou marca violeta na comemoração das conquistas.

A história desse título, porém, não começou a ser escrita em 1976. Ela começou alguns anos antes. Vamos a ela, então.


“Un adelantado”

Profe De León era um homem à frente do seu tempo

Profe De León era un adelantado”, resume o ex-jogador e hoje técnico de futebol Ricardo Tato Ortiz. Ao falar essa frase, o ex-volante, cria do Tuerto, quer dizer que o comandante da conquista violeta era um homem à frente do seu tempo. E Tato sabe o que diz.

Com 14 anos, o hoje morador do bairro de Pocitos, em Montevidéu, estreava no time principal do Defensor. O ano era 1971. O técnico, Profe De Léon, como é chamado por todos que trabalharam com ele. Já naquele ano, De León, que viria a acabar com uma tradição de 43 anos, já mostrava estar adiantado em termos de futebol.

Ele começou naquela temporada a colocar em prática um sonho da adolescência. Em uma entrevista ao jornalista Gerardo Bleier, em 2003, o Profe disse:

“Sonhei quando era jovem, quando jogava basquete na minha cidade. E disse, se isso se faz em futebol, Nacional e Peñarol deixam de ser o que são”.

O “isso” era a forma de jogar dos times de basquete. Ou seja, todos marcam e, também, todos atacam. A marcação sob pressão, começando no campo adversário. Os jogadores precisam ser polivalentes. E esse era o Defensor de 1971, quando Tato chegou ao time principal. E assim era o Defensor de 1976, quando Tato, aos 19 anos, voltou a jogar com De León.

Ricardo Tato Ortiz (E) e Pablo Brandy (D), encontro de ex-jogador e torcedor que acompanhou os últimos quatro jogos, mesmo perseguido pela ditadura

“Isso que fazem hoje Barcelona, Bayern de Munique e tantos outros times por aí, nós aprendemos a fazer lá em 1971, com o Profe De León! Quando ele voltou em 1976, chamou jogadores que haviam jogado com ele naquelas duas temporadas anteriores (1971 e 1972) no Defensor e usou o mesmo sistema de jogo”, lembra o ex-camisa 6 violeta, que atuou com o Profe nas duas passagens dele pelo time.

O narrador uruguaio radicado na Argentina Victor Hugo Morales é um dos principais jornalistas esportivos do continente. Foi ele o primeiro a comparar o estilo de jogo da Holanda na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, com o trabalho de De León no time violeta, em 1971. “Era um time que jogava e lutava, era uma equipe que respeitava a si mesma”, comenta Morales no livro de Díaz.

Outro a confirmar a revolução que De León causou no futebol uruguaio já em 1971 é o ex-jogador Pedro Graffigna. Atacante acostumado a marcar gols na sua passagem pelo Chile, no começo dos anos 70, Graffigna virou volante com o Profe. E confirma:

“Em 1971, ele começou a montar seu sistema. Separando a distância, foi, mais ou menos, o que a Holanda fez em 1974. No Defensor, nós trabalhávamos taticamente por posições ou linhas. Treinávamos sem goleiro para que aprendêssemos a marcar e a não levar gol. Fazíamos isso duas ou três vezes por semana. Com isso, automatizávamos os movimentos. Na frente, o Defensor jogava muito pelas pontas e chegávamos à frente com o maior número de jogadores possíveis”.

Além de revolucionário dentro de campo, De León também o era nas ideias políticas. Comunista de carteirinha — era filiado ao Partido Comunista Uruguaio –, o técnico violeta era, acima de tudo, uma pessoa democrática. Tanto que uma das suas exigências ao chegar ao Parque Rodó no final de 1975 foi a contratação do já veterano Luis Alberto Cubilla. Aos 37 anos, já campeão com Nacional e Peñarol, Cubilla era declaradamente um homem de direita.

Além disso, De León era contrário à luta armada, defendida por parte da esquerda uruguaia naqueles tempos. Sua filha mais velha, Pilar, conta a Díaz no livro Una Vuelta a la Historia… que teve a orelha puxada por seu pai quando, aos 16 anos, entrou para a Liga dos Estudantes Revolucionários, que defendia a tomada do poder à força. Pilar conta que seu pai lhe disse:

“Você vai lutar à sua maneira, resistindo! Resistindo na vida, em teus princípios, no amor”.

Seu posicionamento político, porém, não entrava no vestiário. Quem garante são Tato Ortiz e Graffigna.

Voltando ao futebol, o pioneirismo e o modelo revolucionário do Profe De León levam alguns especialistas a falarem que ele foi o precursor do 4–2–3–1. Tato Ortiz lembra, porém, que o Defensor de 1976 jogava no 4–3–3, com dois volantes mais de marcação, “eu, pela direita, e Graffigna pela esquerda”, e um enganche. Na frente, dois pontas e um centroavante.

Antes de seguir adiante, vale destacar que De León era um homem que fazia planos. E os colocava no papel. O Museo del Futbol, localizado no Estádio Centenário, guarda alguns desses planos, escritos em forma de cartas para si mesmo. Em um deles, datado de 21 de janeiro de 1976, o Profe declarava:

“Hoje, às 16h, começo de novo minha luta por um ideal. O Defensor tem sido, ao longo de minha extensa trajetória futebolística, o inicio de toda minha glória. Tenho que recorrer a toda minha experiência e colocá-la a favor do Defensor. Os erros cometidos não se cometem duas vezes. (…) Devo lutar com inteligência e serenidade. Devo afrontar todas as contrariedades com paciência e esperar por elas sem surpreender-me. Sou dono do meu futuro. Dependo de mim e nada mais. Creio em mim? Claro, mas devo demonstrar isso a mim mesmo. Vamos à luta, então”.

E, falando em não cometer erros duas vezes, o preparador físico Cesar Santos conta, no livro de Santiago Díaz, que em desacerto na defesa no final da partida contra o Fénix, que resultou em um gol do adversário no último minuto e no empate da partida, não foi esquecido por De León. No treino seguinte ele repetiu a jogada 26 vezes. Aquela falha nunca mais foi repetida pelo time.


Problemas com o regime

A repressão uruguaia foi uma das mais ferrenhas entre as ditaduras do Cone Sul

O s avanços de De León dentro de campo se contrapunham ao clima tenso que vivia a sociedade uruguaia desde o começo dos anos 70. Em setembro de 1971, ano em que o Profe iniciou sua revolução futebolística nos gramados, o presidente charrua Jorge Pacheco Areco pediu às Forças Armadas o combate à guerrilha do Movimento Nacional de Liberación, também conhecido como Tupamaros.

Dois meses depois, houve nova eleição, com o sucessor Juan Maria Bordaberry assumindo o poder em março do ano seguinte. Os militares, porém, seguiam com força, muitas vezes contrapondo ordens presidenciais. Houve tentativa de golpe em fevereiro de 1973, amenizada com a troca de comando no Ministério da Defesa.

Em 27 de junho, porém, com o argumento de que existia uma conspiração contra a pátria, Bordaberry dissolveu o parlamento uruguaio com o apoio das Forças Armadas e anunciou a criação de um Conselho de Estado, com funções legislativas, constituintes e de controlar o administrativo. Além disso, o golpe civil-militar restringiu a liberdade de pensamento e de reunião.

Houve resposta da sociedade, com greve geral e manifestações. Mas a repressão foi dura, com prisões, desaparecimentos, tortura e morte de opositores. Muitas pessoas tiveram que exilar-se. Até 1976 a ditadura era tocada por Bordaberry e uma junta militar. A partir daquele ano, os milicos resolveram tirar o presidente do poder e assumir de vez o poder.

Pouco antes, uma caçada a opositores que negociavam uma transição para o regime de exceção foi iniciada. O político e jornalista Zelmar Michilini, amigo do vice-presidente do Defensor Eduardo Arsuaga, foi assassinado em Buenos Aires após ser levado em 18 de maio por homens armados. Seu corpo foi localizado três dias depois junto com os do ex-deputado Héctor Gutiérrez Ruiz e dos tupamaros Rosario del Carmen Barredo e William Whitelaw.

Em meio a tudo isso, a equipe violeta do comunista De León não era exatamente visada pela ditadura uruguaia. Mas alguns jogadores tiveram problemas com o regime. Pedro Graffigna, por exemplo, lembra que por ser ligado à esquerda era visado e, até, monitorado:

“Os setores de inteligência da polícia e do Exército viviam dizendo que iam me prender por ser comunista. Mas isso nunca aconteceu. Controlavam-me o tempo todo, é certo, mas não podiam me levar porque eu era um jogador que, nessa época, estava em excelente fase”.

O monitoramento dos seus passos começou em 1974, quando o detiveram por estar com papéis da Confederação Nacional dos Trabalhadores. Os agentes da ditadura revistaram sua casa, na esquina da Ibiray com Bulevar Artigas:

“Estive 48 horas preso por conta disso. Depois, me soltaram graças à influência e a bondade de alguns amigos. Tenho certeza, me soltaram porque era jogador de futebol”.

Depois do título de 1976, Graffigna voltou a ter problemas durante a Libertadores de 1977. O Defensor jogaria com Boca Juniors e River Plate, em Buenos Aires, mas Graffigna não pode ir. Seu passaporte foi retido pelo governo.

Conhecido como Gol y Medio, Julio Filippini (E) fez um gol na sua estreia, contra o Nacional, e dedicou ao irmão e seus companheiros presos pela ditadura

O atacante da base violeta Julio Filippini também teve seus percalços com o regime. Aos 19 anos, fez sua primeira partida com o time titular ao substituir Rodolfo Pichu Rodríguez. E a estreia, na terceira rodada do Uruguaio, contra o poderoso Nacional, no Estádio Centenário, não poderia ter sido melhor. Filippini marcou um gol e sofreu um pênalti, convertido por Pedro Álvarez — por conta disso, passou a ser conhecido no futebol uruguaio como Gol y Medio.

Seus problemas surgiram após a partida. Durante a transmissão da Radio Oriental, o narrador Victor Hugo Morales perguntou para quem dedicava o gol. O garoto de 19 anos respondeu:

“A meu irmão e a todos seus companheiros da penal de Libertad”.

A dedicatória ao irmão Eduardo, integrante do MLN, causou furor. Seus pais ficaram preocupados, De León, também. Morales foi interpelado pelos militares, que passaram a procurar por Filippini. Por conta disso, a família o escondeu por alguns dias, mas foram aconselhados a entrar em contato com as autoridades. Ao ligar para as Fuerzas Conjuntas, Filippini explicou que sua dedicatória não era um protesto político.

Esse fato, porém, não teve influência no seu futuro no futebol. Só não seguiu no time principal porque o titular, Pichu Rodríguez se recuperou da lesão. Além disso, o Defensor também havia contratado Luis Cubilla, que depois de chegar fora de forma, estava começando a ganhar espaço.

Outro que teve seus percalços com a ditadura foi o lateral-esquerdo Javier Beethoven. Uma manhã, quando estava com o filho em uma praça de Montevidéu. Foi abordado por um grupo de fuzileiros, armados com metralhadoras. Acompanhado do filho de seis anos, Beethoven teve que embarcar em uma van e foi levado à sede da FUSNA (Fusileros Navales). Ao conferirem sua identidade, porém, acabou liberado. Não recebeu nenhuma explicação do motivo da detenção.

Por e-mail, Graffigna comenta:

“Para as forças militares não convinha que uma equipe pequena estivesse indo bem no campeonato”.


“Uma torcida diferente”

Pichação em um dos muros externos do Estádio Luis Franzini, a cancha do Defensor

Sendo um “cuadro chico”, o Defensor não tinha muitos torcedores. Ao longo daquele campeonato, porém, viu seus jogos ganharem importância partida a partida.

Primeiro foi o narrador Victor Hugo Morales, então na Radio Oriental, que decidiu acompanhar os jogos violeta. Na sequência, a cada novo confronto, mais pessoas iam aos estádios ver a revolução que aquele time fazia dentro de campo, ainda mais em um tempo pouco aberto a mudanças.

Um dos torcedores que foi conquistado pelo Tuerto tinha, então, apenas oito anos. Jorge Etcheverry virou tão fanático que hoje, aos 48 anos, é intendente do Estádio Luis Franzini. Em 1976, porém, ainda não havia escolhido um time para torcer.

Jorge Etcheverry assistiu ao último jogo de 1976, aos oito anos. Hoje, administra o estádio

Acompanhando os jogos pelo rádio, Etcheverry começou a sentir simpatia pela equipe do Profe De León. Tanto que, no dia 25 de julho, última rodada do Uruguaio, pediu ao pai que o levasse ao jogo. Assistiu à partida do lado contrário da Tribuna Punta Carretas.

“Foi muito especial”, lembra enquanto mostra as instalações do acanhado estádio ao lado da cadela Victoria Violeta.

Etcheverry fala do clube violeta com paixão de um torcedor e com o conhecimento de quem já trabalha há 14 anos no clube. Conta que, depois de comemorar o título de 1976 com uma volta olímpica ao contrário, todas as equipes, desde a base até o profissional, sempre que conquistam uma taça, comemoram da mesma forma.

“Se algum jogador não o faz, dizem a ele, ‘não entendeste nada’”, comenta, lembrando que o Tuerto é um time que busca fugir à regra, uma equipe contrária ao poder estabelecido.

A face antissistema do Defensor é confirmada por Pablo Brandy, 55 anos. Hoje integrante da assessoria de imprensa do clube violeta, Brandy tinha 15 anos na época do título e lembra com detalhes a campanha.

“Acompanhei os primeiro jogos pelo rádio, de Buenos Aires”, conta. Brandy destaca que morava na capital argentina porque o pai tinha negócios por lá. Mas:

“Por fazer parte de movimentos estudantis, meu nome estava numa lista da ditadura uruguaia. Como morava em Buenos Aires, não podia voltar a Montevidéu com risco de ser preso”.

Mesmo assim, Brandy não se conteve. Voltou clandestinamente para acompanhar as últimas quatro partidas.

“No último jogo estava na Tribuna Punta Carretas”, recorda e destaca como um dos grandes jogos que viu a vitória de 3 a 2 sobre o Fénix, em Parque Capurro:

“Vim para ver os últimos quatro jogos, mas o penúltimo, contra o Fénix foi marcante. Assisti junto ao alambrado, mordendo a cerca. Nunca sofri tanto em uma partida como naquela vez, na cancha deles. Foi uma partida memorável. Terminou 3 a 2 para nós”.

Mas Brandy gosta de destacar que o clube do Parque Rodó vai um pouco além do futebol:

“Não somos torcedores normais, somos diferentes. Somos contra o sistema. O Defensor e seus torcedores são contra o que chamam de ‘máfia’ do futebol”.

Sobre o time de 1976, comenta:

“Os jogadores eram mesmo contrários à ditadura, mas nem todos eram de esquerda. Na verdade, o Defensor é um time que sempre está contra o status quo, na época, era a ditadura que governava por decreto”.


A campanha

Em pé: Francisco Salomón, Ricardo Meroni, Ricardo Conde, Ricardo Tato Ortiz, Freddy Clavijo e Beethoven Xavier. Agachados: Luis Cubilla, José Gervasio Gómez, Pedro Álvarez, Pedro Graffigna e Rudy Rodríguez.

O título do Campeonato Uruguaio de 1976 foi conquistado após uma campanha digna de campeão. O “cuadro chico”, comandado pelo revolucionário técnico José Ricardo De León, venceu 13 das 22 partidas, empatou seis e perdeu apenas três. Duas das derrotas foram frente aos grandes, 3 a 0 para o Peñarol, no primeiro jogo da competição, e 3 a 1 para o Nacional, na quarta rodada do segundo turno.

Nas outras partidas contra os dois multicampeões resultados positivos: 2 a 2 com o Nacional e um glorioso 2 a 1 contra o Peñarol, na abertura do segundo turno. O time do Profe marcou 32 gols e sofreu 24. Vale lembrar que, na época, a vitória valia dois pontos e não três como hoje em dia.

Rodolfo Rudy Rodríguez (D) chuta para definir o placar: 4 a 2 sobre o Wanderers

A derrota por goleada na estreia do torneio poderia ter abalado o trabalho de qualquer outra equipe pequena ou qualquer outro técnico. De León e aquele Defensor, porém, não sentiram os 3 a 0 que levaram no dia 7 de março, diante de 15 mil pessoas no Estádio Centenário. Tanto que na sequência, conseguiu duas vitórias seguidas: 4 a 2 contra o Wanderers (com dois gols de Pedro Álvarez, um de Pichu e outro de Rudy — os xarás Rodolfo Rodríguez) e 2 a 1 contra o Cerro (Pedro Álvarez e Rudy Rodríguez).

O jogo seguinte foi o já citado empate em 2 a 2 com o Nacional, diante de 12 mil torcedores no Centenário. Em abril, o time violeta emendou três vitórias seguidas: 2 a 1 sobre o Huracán Buceo (Omar Mondada e Rudy Rodríguez), de virada, 1 a 0 sobre o River Plate (Pedro Álvarez) e 1 a 0 sobre o Danubio (gol do enganche José Gervasio Gómez).

O dia 25 de abril marcou a segunda derrota do turno e a queda para a segunda colocação da tabela. Ao perder por 1 a 0 para o Sud América, no Parque Carlos Fossa, iniciou uma sequência em que conseguiu apenas dois pontos em seis disputados – os empates em 1 a 1 com o Liverpool (Luis Cubilla) e 2 a 2 com o Fénix (Pedro Álvarez e Rudy Rodríguez).

Salomón (segundo à direita), que viria jogar no Inter em 1978, marcou o gol que iniciou a virada sobre o Huracán Buceo

O reencontro com as vitórias veio no dia 12 de maio, ao bater o Rentistas por 1 a 0, gol novamente de Pedro Álvarez, no Parque Central. A partida marcou o fim do primeiro turno. Embalado, na abertura do returno, o time violeta encarou 40 mil pessoas no Centenário, 95% da torcida era carbonera. Mesmo assim, 2 a 1 para o Defensor, com gols dos xarás Rodríguez.

Após essa partida, um recorde no acanhado Luis Franzini. A partida contra o Cerro levou 12 mil torcedores à cancha do Parque Rodó para verem o empate em 0 a 0. No dia 23 de maio, a última derrota na competição: 3 a 1 para o Nacional (Pedro Álvarez marco o gol de honra). A derrota, porém, não tirou os violetas da liderança da tabela.

Logo depois, mais duas vitórias consecutivas: 2 a 1 sobre o Huracán Buceo (gols do zagueiro Salomón, que jogou no Inter, em 1978, e Cubilla) e 2 a 0 sobre o River Plater, um gol de Rudy e outro contra. Essa última partida ocorreu no mesmo dia em que os militares derrubaram o presidente Bordaberry e colocaram no seu lugar Alberto Demicheli.

Cáceres (15) marca um dos dois gols contra o Fénix, no segundo turno

Nas próximas cinco partidas foram três vitórias e dois empates, que encaminharam o título. Em 20 de junho, a equipe do Profe De León não saiu do 0 a 0 com o Danubio. Mas, em seguida, bateu o Sud América por 2 a 1 (dois gols de Pichu Rodríguez) e o Liverpool por 1 a 0 (novamente Pichu), empatou com o Wanderers em 2 a 2 (Santelli e Gómez), e venceu o Fénix por 3 a 2 (com dois gols de Rudy Rodríguez e um de Cáceres).

Vale lembrar que até na hora de fazer gols, o Defensor era um time democrático. Onze jogadores balançaram as redes. Com oito gols, Pedro Álvarez, seguido de perto por Pichu Rodríguez, com sete, e Rudy Rodríguez, com seis, foi o goleador. Depois, vêm Cubilla, três, Gómez e Santelli, dois cada, e Filippini, Mondada, Salomón e Cáceres, com um.


E a história foi mudada

Santelli (E) e Cubilla (D) marcaram os gols que definiram o título inédito

Como boa parte daquele ano, desde o outono, o dia 25 de julho, um domingo, amanheceu cinza e frio. Uma garoa insistente molhava as roupas de quem tivesse coragem de encarar as ruas de Montevidéu. Mas a expectativa era grande com a última rodada do Campeonato Uruguaio. O título estava em aberto.

Defensor, com 30 pontos, e Peñarol, com 28, brigavam pelo título. Os violetas recebiam o Rentistas, que brigava para não cair. E os carboneros enfrentavam o Sud América, que também lutava para não ser rebaixado, no Centenário. Um tropeço do time de De León e a história não mudaria.

O frio e a garoa não impediram que 15 mil pessoas lotassem o acanhado Luis Franzini. Brandy lembra:

“Aquilo estava cheio demais! Não cabia mais ninguém”.

Como era seu estilo, o Tuerto começou arrasador. Em poucos minutos duas chances de gol. Aos 11, já estava 2 a 0, gols de Alberto Santelli, aos nove, e Luis Cubilla, aos 11. Enquanto isso, no Centenário, o Peñarol ia massacrando o Sud América também.

Santelli (C) chuta para abrir o placar e o caminho para o título

Na segunda etapa, a partida virou um drama. Precisando de um empate para não cair, o Rentistas partiu para cima na garra e acabou marcando um gol aos 30 do segundo tempo. O relógio não andava e o Tuerto acabou cedendo espaço ao aguerrido adversário. Faltando poucos minutos para terminar o jogo, José Ricardo De León decide tirar a pressão de cima dos seus jogadores. Durante a campanha, o Profe fazia isso por meio das entrevistas coletivas. Naquele instante, com a bola rolando e seu time sendo entocado no campo de defesa, ele parecia não ter nada a fazer.

Só parecia. Levantou-se do banco — os jogadores lembram que ele jamais ficava gritando junto ao gramado — e saiu caminhando, lentamente, em direção ao vestiário. Todos os olhos do estádio, inclusive os dos 22 jogadores se viraram para ele. Ganhou segundos de atenção dos adversários. Talvez isso não mudasse o resultado, mas o certo é que antes de chegar à linha de fundo o árbitro trilou o apito.

Anos depois, De León explicou em uma entrevista:

“Levantei-me e influenciei os 22 jogadores. Queria dizer, com aquele gesto, que a partida estava ganha. Assim, os jogadores do Rentistas deram a partida por perdida, porque me levantei. Não sabiam por que me levantei. Os meus jogadores sabiam por que eu havia me levantado. Sai caminhando devagarinho. E, em vez de olhar para a bola, que é o mais importante, os jogadores do Rentistas olharam para seu técnico. Se distraíram”.

Na tarde de 25 de julho de 1976, o Defensor comemorava com um ato de protesto

Aqui, vale um pequeno corte e uma rápida rebobinada na história até o dia anterior. O Profe De León era chegado em um bom bate-papo. Seja com os jogadores todos ou uma conversa individual. Foi assim, na tarde do sábado. Como relata o livro Una vuelta a la Historia, o técnico se aproximou de Javier Beethoven, um dos mais experientes, e comentou, falando que o título era questão de horas:

“Isso é histórico, único, assim que a festa pelo título tem que ser diferente, você tem que inventar algo novo, porque a situação e o contexto exigem”, e seguiu, “o povo está morto, as pessoas já não protestam… olhe para as ruas, não há nenhuma mosca aí fora”.

Foi uma das poucas vezes que usou a situação do país ao falar de futebol e da possiblidade de título. Beethoven chegou a pensar em uma bandeira negra ou, até, camisas pretas, representando o clima de tensão e medo. Mas admite que não chegou a uma conclusão e que não lembra como surgiu a volta olímpica ao revés.

Assim como Beethoven, Pedro Graffigna afirma:

“A volta olímpica foi algo espontâneo, por todo o trabalho do ano e todas as ingratidões que recebemos de vários setores da população. Muitas pessoas se juntaram ao grupo naquela campanha, outros não. O certo é que ninguém lembra quem resolveu dar a volta ao contrário”.


Um título contra a ditadura?

Graffigna, como Tato Ortiz, Brandy e Etcheverry são unânimes em dizer que a campanha vitoriosa de um time com futebol revolucionário na forma de jogar angariou muitos simpatizantes ao longo da competição. A média de torcida do Defensor, que era de cerca de 3 mil por jogo, tirando as partidas contra Nacional e Peñarol, teve um acréscimo durante a competição. Ao longo dos 18 jogos contra as demais equipes cerca de 7 mil torcedores acompanharam a equipe violeta, com recordes como 18 mil pessoas contra o Liverpool, no Centenário, e 15 mil na última partida, no Luis Franzini.

Os quatro personagens que viveram essa história comentam, porém, que não foi só o futebol que trouxe tanta gente para ver as partidas. “Muita gente passou a torcer pelo Defensor como uma forma de protestar contra a ditadura. O Defensor virou uma bandeira para quem queria a volta da democracia”, comenta Etcheverry.

Por ser um “cuadro chico”, a equipe violeta ganhou simpatizantes entre os opositores do governo, entre aqueles que queriam o fim daqueles dias cinzas e frios, cercados de tensão, medo, tortura, mortes e desaparecimentos. Isso porque o Defensor tirar o título de Nacional ou Peñarol era mais ou menos como o povo tirar o poder dos militares, observam.

E acrescenta Brandy:

“Tínhamos um time democrático, contestador, rebelde. Sempre foi assim na história do Defensor. Não seria diferente naquela época”.