A Importância da fita K7 e meus bons momentos com o meu primeiro Gradiente.

Início dos anos 90, house music rolando toda tarde no club mix e eu, moleque com meus 14 ou 15 anos encantado com aquilo. Sempre fui eclético, se de um lado os amigos me apresentaram à Dance Music, do outro meu pai me ensinou a gostar de jogar xadrez nos finais de semana e de escutar um bom Rock’n Roll anos 70, minha mãe, bom, minha mãe me trás outro tipo de lembrança… Lembro-me do seu pulso firme, ajudando a moldar meu caráter, obrigando-me a estudar e passar direto em todas as provas.

Dezembro era sempre aquela coisa, boletim na mão, adeus ao colégio e, se passasse de ano direto, a recompensa aumentava com um bom presente de natal (uma espécie de bônus de final de ano por ter aturado toda aquela chatice de colégio durante tanto tempo sem dar muito trabalho aos meus pais).

Acho que foi no natal de 92 que ganhei aquele presente. Um tipo de som inusitado. Predominantemente vermelho bombeiro, as capinhas das caixas de som de um azul “cheguei” e todos aqueles botões coloridos, nos dias atuais seria abominável, medonho de ver, mas naquela época… Achei lindo, o melhor presente do mundo, afinal tínhamos acabado de sair dos anos 80 e as cores vibrantes ainda estavam na moda (Cyndi Lauper que o diga)

Entre “todas” aquelas funções que vinham no aparelho (Ouvir rádio, gravar e escutar K7s). Ele ainda servia de gravador de voz e, como diferencial, mesclar o som do microfone com o do próprio K7, algo como um precursor dos modernos Videokes que tantos passaram a frequentar nos anos 2000. Para completar, vinha com músicas para cantar… Coisas do tipo “Vou de Taxi” da Angélica e “Uma barata chamada Kafka” dos Inimigos do Rei (daí eu tinha que aguentar a minha irmã cantando essas músicas dia após dia pela casa, mas isso é uma outra estória).

Mas vamos falar dos K7s!
As fitas K7 marcaram toda uma geração, ajudaram a construir nossa cultura musical nos anos 80 e 90. Serviram para gravar demos de bandas de garagem, entrevistas para pesquisas escolares e gravar programas dos primeiros computadores como os TK-90 (sim, eu já era nerd desde essa época).

Bom, para mim, as fitas K7 representaram principalmente um momento de amadurecimento. Eu precisaria ter paciência para encontrar as músicas que gostava e responsabilidade para guardar minhas coletâneas adequadamente, além disso, o K7 representava um poder que até então eu não tinha: O de ter meu próprio gosto musical.

Fita K7 era algo totalmente diferente do que existe hoje em dia!
Primeiro porque não era essa coisa fast food de gravar, compartilhar e jogar fora. Fita K7 era uma coisa que tinha que ser usada com respeito, afinal ela deteriorava com o número de gravações, então, se você não queria comprar uma caixa de fitas toda semana, você necessariamente tinha que saber gravar apenas o que era interessante. Era algo como “bater foto” usando câmera analógica de filme!

Fita K7 era uma coisa cultuada na época!
Você podia fazer suas coletâneas, e isso valia muito… Porque não tinha internet para baixar, MP3, MP4… Nada disso! Ou você conhecia alguém que tinha aquele disco ou ficava cassando nas rádios o momento que aquela música ia tocar para poder gravar, e quando a rádio achava de meter uma vinheta no meio… Tudo perdido, afinal, fita boa é fita sem vinheta — hoje em dia vemos uma completa inversão de valores com DJs vendendo CDs que são lotados de abraços e agradecimentos para as galeras… Naquela época isso era inconcebível.

Fita K7 era muito mais divertida!
Todo mundo que já usou tem uma boa estória para contar. Minha esposa, que o diga. Ela tinha uma fita da Legião Urbana que não deu para gravar uma música até o final e passou anos sabendo a letra daquela música até onde a fita tocava. Penso que as fitas K7, assim como o meu primeiro Gradiente gerou toda uma geração de maníacos por Karaokes, foram as primeiras trolladoras que existiram.

Fita K7 era editável!
Eu sou de uma época na qual as pessoas faziam trabalhos manuais. Nós encerávamos linha e fazíamos nossas pipas e rabiolas para soltar nas férias. Quando um teco teco quebrava, nós íamos escondidos no quintal pegar um pedaço do varal para continuar a barulheira; Mais que isso: Nós destruíamos nossos comandos em ação para criar novos personagens completamente exclusivos e, claro, com treino, um pouco de paciência, uma tesoura e fita durex, nós transformávamos três fitas de 60 minutos em duas de 90. Sim, nós éramos incríveis mesmo… Depois a Basf pegou a ideia e ela mesmo começou a fabricar as tais fitas de90 minutos. Mas não se enganem, essa técnica surgiu em um prédio, muitos anos atrás, no Umarizal!

Fita K7 era uma prova de amor, ou de amizade!
Nós tínhamos amor quase inestimável por aqueles pequenos artefatos. Não se emprestava um K7 para qualquer um! Tinha que ser amigo, tinha que se ter confiança. Quando você emprestava uma fita tinha que ter certeza de que ela retornaria, sã e salva para a sua coleção.

Por fim…
Quem viveu nesses anos sabe da importância que as pequenas fitas tiveram em nossa adolescência. Eram mais que música. Elas eram a própria representação de nossa liberdade, que vinha, de forma muito salutar, em pequenas doses, e uma delas era ter a liberdade de decidir que música você queria escutar e poder levar por aí em seu Walkman, desligado da vida, simplesmente andando de bicicleta ou jogando uma partida de fliperama com aquele velho e bom House tocando no seu ouvido!