BOEMIA LITERÁRIA

Estava sentado em uma mesa de restaurante, dessas que ficam na calçada, no meu transe pós-refeição.

Para espairecer a mente, leitura e álcool. Ou seja: meu jornal diário e um copo de cerveja. Uma crônica, um gole. Uma notícia, mais um gole. Uma nota e… ops! Metade da cerveja foi pra boca; a outra metade foi para o jornal que estava em cima da mesa. Olhei pra poça que acabara de se formar em cima das sábias palavras de João Pereira Coutinho e pensei: “O que eu queria mesmo era derramar o jornal na cerveja!”

Fisicamente, isso seria impossível, visto que o verbo “derramar” – quando usado em sua forma literal – é empregado somente para substâncias líquidas. Mas como isso é uma crônica e não um artigo científico (graças a Deus), certamente meu raciocínio vai além das leis da física.

A literatura – o lado artístico da escrita – e a boemia – eufemismo romantizado do alcoolismo – são parceiras de longa data. Há séculos tem-se “Pessoas” e “Leminsks” que levaram tal paralelismo tão longe que se desgraçaram no meio da parceria.

O ponto é que, naturalmente, a cerveja sempre será derramada em cima do jornal. O álcool sempre seduzirá e se derramará nos escritores, roteiristas, romancistas e jornalistas que se encontrarão pelos bares; o álcool sempre terá a chance de ser amigo, refúgio e janela para a divagação, para a criação.

Mas o que eu queria mesmo é que o jornal fosse derramado na cerveja.

E se a bebida fosse pretexto para ler e escrever, assim como a leitura e a escrita são pretextos para beber? E se todo alcoólatra tivesse uma tendência literária assim como todo literário tem uma tendência boêmia? O Brasil, com certeza, seria um país muito mais literário que já é, não?! Os cervejeiros poderiam ser quadrinistas; os amantes de destilados poderiam ser romancistas ficcionais; os degustadores de vinhos e whiskeys poderiam ser admiradores da literatura greco-romana. E, claro, nossa cachaça de cada dia poderia ser a coluna diária de “A Vida Como Ela É”.

Bobagem minha pensar nesses arrojos.

Enquanto o jornal não se torna líquido, vou amassando cada folha e enfiando devagarinho no copo de cerveja. Não quero que o jornal se rasgue nem que a cerveja caia do copo.

Por: Roberto Néri

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