NOSTALGIA CASEIRA

Os meus pais e os seus pais bolaram um macroplano muito antes de termos a capacidade cognitiva de ler e entender essa frase.

Para nós, não passava de um almoço de domingo em família com frango assado na mesa. O que não sabíamos era que junto com o frango goela abaixo, uma lembrança estava sendo propositalmente sendo plantada em nossos cérebros. Não só uma lembrança inofensiva, mas uma lembrança que gera nostalgia, daquelas acovardadas que te fazem corar, chorar, sorrir e, claro, se indignar com tamanha perspicácia de papai e mamãe.

De tanta admiração revoltada (ou revolta admirada, se preferir), desvendei o provérbio e explico o plano eterno da manipulação de lembranças. A máquina funciona assim: você pega uma mente limpa e desprotegida; uma folha em branco, praticamente. Então você atrela os sentidos do corpo humano a situações que remetam a carinho, conforto, segurança e sentimentos bacanudos que, em nossa infância, costumamos sentir de forma plena. Está armado o circo! O que seus pais fizeram foi, pegar essa situação linda, maravilhosa do almoço dominical e selar nos seus sentidos – nesse caso, o olfato e o paladar, principalmente. E não é só com dois ou três finais de semana que isso passa a funcionar não. Isso é trabalho de longo, longo, longo prazo (George Harisson diria)! São fins de semana a fio para que a semente da nostalgia seja plantada. Depois de plantada, nem precisa regar. Quinze ou vinte anos se passam, você um adulto independente, passeando no centro da cidade que você escolheu morar, a quilômetros e quilômetros de casa, na rua, no sol, domingo e PÁH! O cheirinho do frango assado te teletransportou para quilômetros-anos-luzraioestrelaeluar.

Nostalgia é uma coisa doida mesmo. É um aperto no peito gostoso de sentir. É a imensa saudade de uma sensação, de algo abstrato, de algo que só aconteceu dentro da sua cabeça. E é por isso que nesses dias, tenho usado sempre o mesmo desodorante e bebido sempre a mesma cerveja. Eu quero ver se entendi o recado, se aprendi a lição e, antes de um dia aplicar a experiência em um filho, estou me usando de cobaia para gravar esses dias nos meus sentidos e criar em casa a tal nostalgia.

Por: Roberto Néri

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