ODISSEIA PAULICEIA I

Do dia que me curei do amor.

Começa com vinte minutos de imersão. Um corpo inerte, porém não morto. Uma carcaça carente. Inanimada, não. Não era. E quisera eu estar lá pra ver. Eu quis ver e vi. Repassei o passado mirando o rosto de cada estátua viva e ensaiei, engasguei os versos em lágrimas e saliva. Lá fora, cada qual em sua fogueira e a primeira não me olhou, a princípio. Estagnei em frente a ela e mergulhei. Entrei no transe profundo de um olhar. Cada metade do rosto me dizia seu oposto. Um olho me via, o outro me confundia e meu corpo tremia até me acostumar com a ideia de um outro ser diante de mim. Dois corpos parados, mas vivos. Mil motivos pra continuar. Depois da excitação, a hesitação e, enfim, a execução. Bem devagar, eu dei o primeiro passo com o pé direito, fácil. Seus olhos reagiram e então sorriram. O véu caiu, o templo ruiu, o tempo rugiu. Mais um passo, agora com o pé esquerdo. E o inchaço dos olhos que agora não tem mais medo. Nas minhas mãos, dois pedaços de papéis iguais. Duas partes de um coração partido.Uma parte minha e outra sua. Nos papéis, o poema secreto, sagrado, selado. Abrindo alas pra razão, batendo asas pra libertação. A minha metade do coração partido, eu coloquei na boca. Minha metade viva misturada com saliva se desmanchou na descida. A sua metade, foi dobrada e colocada na alça das vestes dela. Você e eu e o apogeu de nosso fim. E agora, o regresso ao meu universo perverso. Em cada passo, de trás pra frente, a mente vazia esperando o seu olhar que não mais sorria e se perdia na multidão que te distraia e em outro olhar que te atraia.

Por: Roberto Néri

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