PAPO DE CABRA POETA

Daí o freguês número dois da menor padoca de Santo André me disse, sentado na mesinha lá do fundo, que a arte se revela quando o sujeito expressa seus mais profundos sentimentos – que as palavras não explicam – através de qualquer coisa. Menos através das palavras. Essas já foram inutilizadas por incompetência e ficaram guardadas debaixo do lençol e do pó do almoxarifado com o carimbo de “obsoleto”.

Cruzes! Mas e o poeta? Vive de lixo inútil? Como faz pra expressar os ditos cujos e sujos sentimentos quando nada – abstrato, concreto ou plástico – consegue exprimir e espremer o que tá aqui saculejando na caixola?

Deixe-me em paz, miserável! Se eu quiser ficar atacado de rinite só por querer ir atrás da matéria-prima obsoleta da poesia, é problema meu e da Língua Portuguesa. Que Deus a tenha.

Tem culpa eu se sou cacófono nato sem prendas, prégas ou papas na língua? Foi a última flor do Lázaro – lazarenta que só ela – quem me escolheu. A mim, só restou o lápis, o guardanapo e a cachaça que me redime de minuto em minuto.

Vai vendo! Vai pintar teus quadros enormes aí. Vai moldar teus projetos de nada. Vai ficar pelado no meio da Praça do Carmo. Enquanto isso eu vou estar sentado aqui na mesma mesinha do fundo, confidenciando a esse pedaço de papel-de-limpar-bigode os mais enigmáticos mistérios do planeta Eu. E o teu mundo vai se explodir de curiosidade por nunca saber o que se passa nas bandas de cá. Pense!

Bem feito, seu besta! Vai ser amigo das letras que você ganha mais. Ganha três reinos, um latifúndio e as filhas de todos os generais. E digo ainda que ganhará sem perder nada. Nem tempo nem espaço. Pois o alfabeto é grande no falar, mas cabe debaixo da língua e na esfera da caneta. Igualzinho ao pensamento que é imensurável como o universo e pequeno como as frases de biscoito da sorte.

E sabe pra quê isso, seu Barbosa? Pra poder caber na sua castanha-do-Pará e na minha caixa d’água!

Por: Roberto Néri

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