
Alien
Chegou em casa depois de ter tomado exatamente cinco cervejas, não era uma grande quantidade, mas era o suficiente para ele questionar sua própria existência. Parou em frente ao espelho, se encarou, olhou nos seus olhos e não se reconheceu. Aquele poderia ser qualquer um, mas definitivamente não era ele.
Algumas vezes tinha a impressão que o reflexo não acompanhava seus movimentos, ou seja, mais comprovações que o espelho não refletia seus pensamentos e nem a sua encarnação. Longe de achar que fosse sua alma, não mesmo, tinha impressão que era um vírus que o controlava. Alguma coisa ali tinha poder sobre ele e não era nada espiritual, mas físico ou até mesmo maligno.
Seu corpo agia como um fantoche de um ser superior ou era apenas um organismo que tinha acesso a sua carne. Não importava qual dos dois, percebia que ele era apenas 1% do que foi ensinado a pensar. Era humilde o suficiente para reconhecer que a sua vida era uma mentira, uma ilusão muito bem elaborada ou um videogame de última geração. Nada era real.
Quando andava na rua inclusive via as pessoas ao seu redor como atores encenando a sua realidade, o mundo sem dúvida não fazia sentido, mas morrer era algo absolutamente impensável, queria a verdade, mas era encantado com aquela mentira. Tinha medo do desconhecido, mas eram tantas boas distrações que raramente se via pensando nisso. Exatamente por esta constatação que aproveitava ao máximo aqueles momentos frente ao espelho.
Ficou ali mais uns vinte minutos tentando encontrar algo realmente errado, ter um prova concreta da sua mediocridade nesta galáxia, esperando que pelo menos visse um alien ou um fantasma para dizer que viver valeu a pena e que aquela cena valia pelo menos o preço do ingresso. Parou, pensou, não sabia se era realmente uma boa ideia entender tudo aquilo, apagou a luz, deitou, dormiu, acordou e voltou a dormir por mais alguns anos.
Roberto Pantoja
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