Felicidade para quem?

Ele estava doente, era culpa dos leucócitos! Já fazia um tempo que a sua vida ia de mal a pior, o médico culpou o stress, mas ele culpava o seu maldito trabalho.

Desde de criança sonhava em ser bombeiro, mas seus pais insistiam que ele devia ser advogado, ser chamado de doutor. Depois de sete anos de estudo, sim, ele contava com os dois anos de estudo daquela maldita prova da OAB. Se formou, recebeu sua licença e foi trabalhar.

Depois de muito esforço conseguiu um emprego. Ganhava mal, trabalhava dez horas por dia, tinha um chefe que era um idiota e que usava abotoaduras, se dizia importante, parente de algum ministro, e claro, prometia sociedade depois de dez anos…

A sua vida não estava uma merda, ela era uma merda. Tudo começou errado, fez o curso que não queria, casou com a mulher que não amava, fez tudo que lhe pediram, seguiu o caminho que parecia perfeito. Ele odiava tudo aquilo, mas seu pai achava lindo o seu terno, era o orgulho da família. Seu irmão era visto como um fracassado, mas tinha a vida que ele sempre sonhou…

Pensou em se matar diversas vezes, mas não tinha coragem. Merecia uma segunda chance, pois não tinha feito nada que havia sonhado. A sua vida passou tão rápido, já tinha trinta e muitos… Faltava pouco para a tão “esperada” sociedade. Aquele timming era horrível, pois faltava pouco para ganhar mais, porém faltava muito para ele ser feliz.

Para seu azar tinha um amigo bombeiro que ganhava bem e era mais feliz do que ele, maldito Daniel. Ele queria salvar vidas, mas a sua mulher também admirava o terno, e principalmente o status. E ainda tinha o Rafael, seu filho de dois anos. Era tanta coisa, que ser feliz era de um egoísmo enorme, pensava.

Depois de dois anos chegou a tão sonhada promoção das pessoas a sua volta, todos ficaram felizes, naquele momento percebeu que seguiu a vida que todos queriam, menos ele. Como já era um velho segundo as mulheres da sua família, resolveu que a infelicidade seria um padrão na sua vida. Comemorou com o único sorriso que sobrou, do lado direito.

A festa foi na casa do pai orgulhoso que sonhava ser doutor. Naquele dia chegou ainda mais cansado em casa, deu um soprada no umbigo do filho, um abraço na mulher e foi dormir, na tentativa de esquecer aquela existência e ter um momento de paz, que só era possível no seu inconsciente, nas suas únicas cinco horas de felicidade.

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