Meu próprio reino


Sua cidade era cercada por um muro com mais de cem metros, que protegia seus habitantes do desconhecido. Vivia ali há dezoito anos, mas como a grande maioria, nunca tinha saído dali. Os mais velhos diziam ter visto a muralha ser levantada, mas também nunca foram embora e mesmo assim acharam melhor, sempre alertavam dos perigos do mundo, que era mais importante trabalhar e estudar, estes deveriam ser os objetivos dos jovens. O que havia atrás daquela barreira era irrelevante, a vida já era difícil e sacrificada demais para pensar além.

Tinha atingido a maioridade e desde criança sonhava em conhecer o outro lado, queria entender porque construíram algo tão grande, mas sua curiosidade sempre foi mal vista. Quando era mais novo, todos seus amigos eram como ele, questionavam, porém, com os anos, seus professores, pais, avós e a propaganda do rei iam desestimulando este saber. E agora, ninguém mais falava sobre isso, era como se nunca tivessem tido o interesse.

Aprendeu a ignorar os conselhos, o medo, que pareciam limitar sua vida, achava aquele comportamento muito estranho, todos negavam aquilo que podiam ver, aquele muro gigantesco, que podia ser visto de qualquer anglo, era óbvio, mas ninguém ali ousava questionar. Todos viviam em constante medo, do que podia sair do outro lado, mesmo que em décadas nada de trágico tenha realmente acontecido, mas as pequenas experiências negativas eram passadas verbalmente como grandes verdades.

Ele entendeu rapidamente que não havia nada a temer, que estar protegido era a verdadeira prisão, mas mesmo assim temia as consequências, sabia de diversos relatos daqueles que ousaram ir contra o sistema, como um grupo de rebeldes que tentaram doutrinar a população a fugir da cidade, mas foram capturados, tiveram suas cabeças cortadas e expostas na escada da catedral. Claro que isso aconteceu há muito tempo, hoje a cidade era mais civilizada e estes rebeldes eram simplesmente presos. O controle não era mais violento, era feito utilizando a mídia. E sempre surgiam grupos secretos que tentavam burlar o sistema para ultrapassar aquela barreira, mas sempre eram pegos pelas autoridades, que recebiam denúncias da própria população que se sentiam na obrigação de manter a ordem. Por isso, ele sabia que não podia confiar em ninguém, pois estavam todos controlados.

Aquele sistema funcionava porque existia um conceito muito forte de nação, o rei sempre exacerbava a pátria em todos seus discursos, falava da importância de amar a sua cidade, a sua cultura, a sua bandeira, respeitar as leis e o seu exército. Assim era mantido o status quo, porém os monarcas eram os únicos com permissão para atravessar o portão que levava ao exterior. Eles saiam uma vez ao ano por alguns dias, diziam que coletar informações para saber se o mundo já estava seguro novamente.

O que havia do lado do muro ninguém sabia ao certo, alguns diziam que eram gigantes que devoravam as pessoas, por isso a muralha era tão grande, outros diziam que era um ambiente selvagem, com animais perigosos, cada um tinha uma história, uma explicação, baseada numa “experiência” que na maioria das vezes nunca aconteceu, tudo para manter tudo exatamente igual. Como não aceitava aquilo, ficou durante anos bolando um plano para ir embora dali. Iria entrar escondido na comitiva do rei para conhecer o outro lado e não tinha nenhum interesse em voltar, aquela vida medíocre não era para ele.

Poucos dias depois de seu aniversário, uma excelente coincidência, finalmente chegou o dia oficial, era no mês de agosto. Acordou cedo, deu um abraço apertado em cada um da sua família, que estranhou o comportamento, deu um sorriso e disse que ia para o seu trabalho. No caminho entrou num beco e esperou, quando a última das carroças com os mantimentos dos monarcas passou, entrou rapidamente atrás, se escondeu entre os alimentos. Esperou ali algumas horas, escutou as palmas da população, escutou o portão abrindo e fechando, esperou escurecer e saiu sem ser notado. Ficou deitado na grama por alguns minutos, viu a direção que a comitiva ia, levantou, olhou ao redor e percebeu que estava numa floresta, mas não sentiu medo, procurou uma árvore, deitou e dormiu. Na manhã seguinte acordou bem cedo e foi atrás da comitiva, andou alguns minutos, ficou escondido entre as árvores e viu dezenas de comitivas, tinham centenas de pessoas ali, pareciam todos monarcas, estavam tomando vinho, desfrutando de um banquete e rindo muito. Ficou curioso observando aquilo por algum tempo e foi embora para o desconhecido, na direção oposta a sua cidade, andou por algumas horas e rapidamente percebeu que o mundo era enorme e o horizonte infinito.

A vida ali era muito mais fácil, podia se alimentar dos frutos das árvores e dormir ao relento, sem obrigações ou deveres. Curtiu o momento por alguns instante e voltou a procura do que buscava, depois de dois dias de caminhada, viu algo inusitado, um outro reino. Ficou com medo, olhou de longe, viu que o muro era ainda maior, escolheu agora ir para outra direção e cada dois dias encontrava uma nova cidade, todas tinham muros de diferentes tamanhos, alguns eram tão pequenos que seria possível pular, outros enormes, mas ironicamente ninguém saia dali, que interessante, pensou. Olhava e seguia adiante. Ficou nesta jornada por algumas semanas até decidir o que iria fazer de sua vida, não sabia se iria voltar para sua família ou se iria escolher uma cidade com um muro baixo, para poder pular quando bem entendesse, porém, sentiu que aquilo era uma falsa sensação de liberdade, pensou bem e escolheu ficar ali na floresta, onde ele estaria sozinho, mas seria o seu próprio rei, dono do seu próprio reinado, sozinho, mas livre.