Minha avó morreu.
Meu avô por parte de mãe, uma vez me disse que as pessoas que tentam se matar fazem isso para chamar atenção, seja da sua família, seja da sociedade; mas quando morrem são rapidamente esquecidas, apagadas da nossa memória. Por isto me deu um conselho: se você quiser incomodar a sociedade ou chamar atenção, precisa estar bem vivo, pois morto nínguem vai lembrar de você. Ele tinha razão…
Minha avó não se matou, ela jamais faria isso, amava a vida como ninguém, mas posso garantir que o universo fez o papel de apagar cada átomo seu. Me pergunto como uma pessoa tão próxima pode virar uma memória tão remota, me pergunto que mecanismo de defesa é esse que temos no nosso cérebro que vai destruindo cada emoção, cada momento especial.
Minha avó ficou doente por alguns anos e a sua existência na Terra foi desaparecendo, a doença foi destruindo aquela mulher poderosa e viva. Nos seus últimos meses de vida parecia que ela já não estava mais lá, parecia que era apenas um registro do que ela foi. No dia que a minha avó morreu senti uma dor no peito, mas não fiquei triste o quanto ela merecia, pois parecia que ela já tinha ido embora há muito tempo, a doença a tinha apagado lentamente.
No seu velório fiquei buscando um motivo para chorar, mas não encontrava. Porém, na hora que ví o seu corpo no caixão, me veio à cabeça não aquilo que ela era nos últimos meses, mas aquilo que ela foi. Lembrei dos momentos que passamos juntos e de como alguém tão especial pode simplesmente desaparecer, e pior, desaparecer da nossa mente. As memórias tão vivas da minha infância já não tinham mais forma e as lembranças eram algo tão remoto que pareciam de uma vida passada. Na verdade foi isso que me fez chorar ao ver o seu caixão descendo lentamente para a escuridão eterna, queria que ela estivesse viva na minha memória.
Minha avó não morreu agora, mas há muitos e muitos meses, mas ontem à noite fiquei pensando nela antes de dormir, pois falam que se você pensar profundamente em algo antes de ir para cama irá sonhar com aquele pensamento. Infelizmente nada aconteceu, dormi, acordei e não lembro de nada. Maldito universo. Hoje, pela primeira vez, escrevi o que queria, escrevi chorando, na tentativa fracassada de torná-la eterna novamente. Hoje à noite vou me concentar novamente na minha avó, na tentativa de ir contra a minha mente e o universo.
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