Morrer para Sempre

O ano era 2100, ela tinha setenta anos, mas não porque precisava, mas porque escolheu. Já fazia cinquenta anos que haviam descoberto uma maneira de rejuvenescer as células, de ser jovem novamente, de viver para sempre. No começo aquela terapia custava um valor absurdo, exatos um milhão de dólares, somente poucas pessoas tiveram acesso, mas em apenas cinco anos um garoto descobriu como baratear aquele processo em mil vezes e em menos de dez anos ser jovem para sempre custava cem dólares. Sim, acessível a todos.

Aquela terapia mudou o mundo, muitas pessoas passaram a não ver sentido na vida, pois não viam um motivo para fazer algo, aquele fardo de estar vivo podia durar para toda eternidade. E o medo de estar vivo passou a ter o mesmo peso de morrer. Sim, existiam várias formar de morrer, como desastres com esportes radicais, que passaram a se tornar cada vez mais populares, óbvio. Sim, era difícil morrer, era preciso, assim como um Highlander, quase que cortar a cabeça de alguém ou explodir em milhões de pedaços, mesmo assim acontecia com uma frequência razoável.

Ela era diferente, escolheu envelhecer, pois era muito religiosa e não acreditava que viver para sempre seria um plano de Deus. Seu marido, diferente dela, escolheu ter sempre trinta anos, pois segundo ele foi a melhor fase da sua vida quando ainda era um mortal. Seus filhos também escolheram ter esta idade, a única pessoa que envelhecia era ela. E aquela cena assustava sua família e as pessoas a sua volta, pois poucas pessoas no mundo escolheram este destino, morrer. E o seu caso era especial, pois ela nunca se medicou e seria uma das primeiras a morrer de velhice naquele novo mundo. Por isso, a sua escolha era noticiada, saia em todos os jornais. Nas entrevistas ela alegava que o inferno era estar vivo, que a vida é uma mentira, que vivemos dentro de um filme holográfico, uma ilusão. Parecia loucura, mas fazia sentido para alguns aquela interessante história. E que esta invenção, estar vivo, era apenas uma armadilha do diabo para nos aprisionar para sempre nesta falsa realidade.

A sua escolha não era apenas pessoal, era também para motivar o maior número de pessoas para sair daquela condição de estar vivo. A morte natural ou proposital virou uma forma de protesto, a sua morte anunciada virou tema dos mais variados mercados, desde de camisetas até roteiros para filmes. Ela queriam provar que a morte pode ser uma escolha, um desejo, no qual ela tinha direito. Sim, escolher morrer naturalmente era o suicídio do século XXII. Era falta de amor próprio, uma desistência, mas ela lutou por este direito até seus últimos dias de vida, que foi transmitido ao vivo. Aquela morte causou comossão, mas por um curto período de tempo, pois as pessoas preferiam ser eternas em vida do que em espírito.

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