Seu Lar
Via o mundo como um lugar sombrio, andava com roupas escuras e seu quarto estava sempre com as cortinas fechadas. Mesmo nas férias, ao meio dia, fazendo trinta graus, ele ficava no seu computador naquele breu, ali era o seu único momento de liberdade, de realmente fugir da realidade, do mundo que ele considerava deprimente. Sempre acreditou que o planeta era um palco, cheio de atores e ele não queria fazer parte daquela encenação. Odiava, principalmente, as pessoas que deixavam claro este comportamento, com seus sorrisos brancos e falsos. Enquanto a sociedade via brilho no sucesso e na luz do dia, ele via uma farsa, uma grande mentira, uma ilusão.
Sua mãe era uma mulher simples, que sempre deu duro pela família, principalmente, depois que seu pai morreu. Ela usou o trabalho como válvula de escape e só voltava a noite. Sua irmã era o oposto dele, se vestia como uma boneca, tinha sido enganada pelo consumo e pela vaidade, como se sempre usasse uma máscara na cara e no corpo. Ele não julgava as duas, apenas tinha pena, sabia que era a forma que elas tinham de expressar um grande vazio na alma. E achava irônico elas pensarem exatamente a mesma coisa dele, como se eles fossem todos uns degenerados.
“A mulher do seu pai” era a denominação perfeita para sua mãe durante toda sua vida, pois ela agia como tal até ele morrer. E depois disso, precisou se adaptar ao seu novo mundo, mas mesmo que agora cuidasse da própria vida, já não tinha capacidade emocional para cuidar dele e da irmã. Por isso tinha dó daquela alma perdida vagando de pijama pelo apartamento, sem rumo, sem direção, indo para cama o mais cedo que podia, para acordar e ir trabalhar. E a provedora da família ficava muito preocupada com ele, pois seu pai tinha tirado a própria vida e eles eram muito parecidos… Ela e toda família ficava apreensiva dele ter o mesmo destino.
O problema da sua casa começou quando eles chegaram do cinema e abriram a porta, e ali estava seu pai pendurado com os olhos virados e a boca aberta. Morto, enforcado, sufocado, sem deixar uma palavra ou bilhete. Apenas um vazio no coração de todos, que agora julgavam aquela decisão, pois o chamavam de covarde, já que não teve coragem de enfrentar a vida. Obviamente ele discordava disso tudo, pelo contrário, achava seu pai um homem de atitude e não um hipócrita que aceitava esta mentira chamada vida. E agora, era obrigado a ver o pai como uma sombra escura, um mal exemplo.
Era ainda madrugada, mas ele acordou confiante, naquele dia e horário específico, no qual ele tinha planejado tudo. Era o dia da sua morte, do seu juízo final, ia finalmente cometer suicídio, assim como seu pai. Algo que planejou por anos, antes mesmo de seu pai morrer, por isso achou aquilo uma coincidência interessante. O dia finalmente tinha chegado, era o seu grande momento, o encerramento da peça da sua vida. Ao invés de medo, sentia ansiedade, não via a hora de ir até a ponte mais alta da cidade e abraçar o infinito. Pegou seu casaco preto, entrou no ônibus e pode observar pela última vez a mediocridade daquelas pessoas a sua volta. O motorista parou próximo a entrada da ponte, ele caminhou uns cinquenta metros, parou, olhou para o horizonte e subiu no parapeito, sentiu o ar no seu rosto pela última vez, deu um passo para a eternidade e caiu. Sentiu uma liberdade enorme e antes de bater no mar, fechou os olhos e deixou o impacto levar sua humanidade.
Não sentia nada, nem seu corpo, nada, somente uma paz enorme. De repente começou a sentir tudo de novo, seu coração batendo e a sua pele, que estava molhada, porém era uma sensação muito forte, mais forte do que tudo que ele já sentiu. Abriu os olhos e ele estava no fundo do mar, mas o gosto da água era doce, olhou para cima e via uma luz, nadou com força para a superfície, quando sentiu duas mãos lhe puxando da água. Uma nas suas costas e outra na testa, saiu como se estivesse sendo batizado no rio. Abriu os olhos sem jeito, ainda incomodados com as gotas e viu seu pai, franziu a testa e viu o sorriso no rosto dele. Seu pai estava feliz, cercado de pessoas bonitas vestidas de branco, num lugar mágico, com uma natureza perfeita e um céu azul. Ele o abraçou bem forte, segurou sua mão direita e a levantou, ali todos estavam em êxtase. Olhou nos seus olhos e disse “parabéns meu filho, você conseguiu, foi um dos únicos no meio de bilhões, pulou para a única vida que existe, bem vindo ao seu verdadeiro lar”.
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