Sucesso na Vida

Era uma pessoa feliz, fez exatamente tudo como todo mundo queria, agradou sua família e o seu marido. Era uma mulher correta e fiel, teve dois filhos com o único homem que amou e fez amor, e trabalhava oito horas por dia, exatamente como todas as pessoas. Por conta de sua perseverança e hábitos regulares, tinha a impressão que o mundo lhe devia alguma coisa. Fazia questão de frisar que suas boas escolhas desde a infância eram seu mérito por ser uma mulher bem sucedida, pelo menos naquele momento da história, naquele país em que vivia. E sempre dizia com a boca cheia, que as outras pessoas não tiveram o seu destino porque nunca se esforçaram o suficiente. Acreditava de coração que o seu sucesso era mérito pessoal, uma conquista feita com suor e por isso as pessoas a sua volta mereciam a vida medíocre que viviam.

Um dia chegou em casa e tinha um rapaz na sala, era um estudante, aluno do seu marido. Ele tinha o dom da palavra, como a sua mãe costumava falar. O garoto falava de um mundo inovador, de coisas fantásticas, onde tudo parecia fácil e diferente. Naquele momento pensou, como aquele menino não sabia de nada da vida, que era apenas um futuro vagabundo ou desempregado, mas mesmo assim se achou no direito de interferir na conversa para ensinar um pouco da vida. Já nos primeiros cinco minutos de conversa aquele petulante já arrumava maneiras de convencê-la de que o mundo funcionava graças a pessoas que se arriscavam por um futuro instável para que ela tivesse a impressão de que tinha uma vida estável, e que sem estes homens ela não teria sequer emprego. Achou aquilo o fim da picada, como assim? O lugar que ela trabalhava era uma exploração, que não pagava metade do que ela merecia, mas o garoto insistia que ela não merecia nada, pois não tinha construído nada, estava apenas cumprindo ordens para que as coisas funcionassem de acordo com o que uma pessoa que criou o sistema estabeleceu… Ela era vítima das circunstâncias criadas por outras pessoas. Dizia o rapaz, sendo observado com a curiosidade do marido e com o ódio da mulher.

Segurando a língua, pensava que aquilo não fazia sentido, era uma mulher que tinha dado duro a vida toda, pois foi a melhor aluna do colégio e deu duro para conseguir aquele emprego digno. Mesmo que fosse numa escola que sua família proporcionou e que seu emprego não tivesse grandes desafios, o mérito era dela. Estava revoltada com aquele assunto do aluno do seu marido, ele não sabia nada da vida dela, pois tinha certeza que mesmo que nascesse em uma família sem dinheiro, sua história seria idêntica, teria tudo que tinha. Quem era ele para falar isso para ela? Pois tinha certeza que não era medíocre, muito pelo contrário, tinha exatamente a vida que todas as pessoas a sua volta sonhavam. Era uma mulher realizada, bem casada, com filhos, era invejada. E não era uma adolescente, que não sabia nada de sacrifício, que iria tirar ela do sério!

Sentada na cama, com raiva, disse isso tudo para o seu marido antes de dormir, que escutava curioso e perguntava se estes não eram os ideais deles quando eram jovens. E ela respondeu que jamais teve estas ambições e que sua vontade sempre foi virar mãe, ele que era um sonhador, que graças a ela tinha colocado os pés no chão e que agora isso não tinha mais espaço naquela casa, pois tinham dois filhos para criar e não queria nunca mais ver aquele moleque revolucionário na casa dela!

O homem como de costume, se calou, e eles, como de costume, foram dormir cedo para acordar cedo, pois tinham muitas obrigações e deveres a cumprir. Ela ainda acordada pensou, que aquele menino nunca mais iria tirar a estabilidade do seu lar. Então, ela pegou a garrafa de água para colocar ao lado de sua cama, vestiu um pijama comportado, leu uma passagem, rezou pela família e pediu misericórdia para aquele pobre coitado. Deu boa noite para o marido e foi dormir satisfeita com a vida que Deus lhe deu.

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