Visão Periférica

O ser humano tinha descoberto que o universo é infinito, mas não entendia a depressão na vida de uma única pessoa. Ele pensava assim, achava o mundo moderno demais, e agora estava impressionado com um novo aparelho que era usado pelos jovens. Na verdade, era utilizado por todos, menos por ele.

Primeiro inventaram um óculos, no qual você podia olhar na lente, no vidro, como em uma tela transparente, a hora, o clima e outras bobagens. Rapidamente aquele negócio evoluiu, e as pessoas conseguiam interagir com o ambiente, uma realidade aumentada, era possível ver o melhor caminho para casa ou quais casas estavam à venda na sua rua. Depois de alguns anos aquilo virou uma lente de contato, era invisível e conectada a rede, um aparelho praticamente indestrutível, com uma bateria que era trasparente e durava anos. Este foi um passo importante para aquela nova tecnologia, pois agora ninguém sabia quem estava usando aquilo, e no fundo, todos estavam usando.

Aquela coisa tinha aplicativos desde o antigo óculos, mas agora, quando você olhava para qualquer pessoa, a lente acessava um banco de dados online e passava informações. Desde o começo era ilegal pasar informações importantes, mas rapidamente todo mundo conseguiu burlar o sistema, e bastava olhar para alguém para saber até mesmo a sua conta bancária, baseada na soma de todas aquelas informações disponíveis em redes sociais e outros lugares.

Aquilo afetou como mundo funcionava e as pessoas começaram a se relacionar de acordo com aqueles dados, uma mulher olhava para um homem na festa e já tinha acesso ao seu perfil. Beleza e afinidade passaram a ser um elemento irrelevante, pois não existia o mistério de conhecer uma pessoa. Quando uma mulher sentia atração física por um homem, rapidamente sabia que ele não tinha um relacionamento sério há muitos anos e tinha fotos com diferentes mulheres em um prazo curto de tempo, com uma probabilidade muito baixa de se comprometer.

Desta forma as pessoas passaram a ter um perfil definitivo, um stigma, afinal ninguém conseguia ser perfeito. Uma mulher com um passado duvidoso, ficaria presa aquela situação para sempre, assim como um homem fiel. Eram todos reféns daquela tecnologia, a vida tinha perdido o charme, era assim como ele chamava aqueles pequenos detalhes que diferenciavam os humanos das máquinas.

Não fazia mais sentido viver em um mundo assim, não era um lugar para ele, que se importava em conhecer as pessoas, de verdade. Teve todo este pensamento dentro do carro, um dos poucos que ainda existiam, um carro de verdade, movido a gasolina, que tinha uma pequena mangueira ligada ao escapamento, pois sempre leu que era a maneira mais fácil de se matar, a fumaça do carburador era o solução silenciosa e inodora para o seu problema. Ficou ali mais uns vinte minutos até ir de encontro a solidão eterna deste imenso universo.

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