Como a postura vegana se fragiliza quando perde o foco

Percebi nesses poucos anos desde que assumi uma conduta vegana que existe uma tendência a dispersão do objetivo principal dessa filosofia.

Quando alguém perguntava o porquê de eu ter parado de comer até mesmo peixe, eu costumava responder com qualquer uma das boas razões que me vinha a cabeça e normalmente o assunto morria aí. Quem é vegano, vegetariano ou está mais ou menos inteirado sobre essa postura de vida deve conhecer a maioria dos motivos para não se comer peixe, por exemplo. A maior parte desses argumentos, assim como quase todos os outros, possui grandes falhas.

Não é muito difícil armar uma arapuca de pegar veganos.

Mas qual a resposta mais adequada? Como fazer com que a pessoa que questiona não vá embora com uma resposta pronta e parcial, provavelmente carimbando a dúvida em sua mente com um RESOLVIDO enorme em vermelho e continuando sua vida sem a necessidade de voltar a esse assunto por um tempo indefinido?

Também é bastante triste (ou divertido dependendo da situação) que a resposta envolva questões espirituais. Muitos seguidores da doutrina espírita se abstém de carne por motivos religiosos. Se você “defende” sua conduta em relação aos animais não humanos pondo crenças no meio, você está dando um tiro de bazuca no pé da filosofia vegana. Por causa de respostas assim, extremamente comuns, o veganismo é rotulado como seita.

Não estou falando apenas em relação a particularidades do espiritismo mas sim em questões de fé e emoção. Se você levanta bandeiras baseadas em fé e emoção, automaticamente transforma sua conduta vegana em algo obscuro, subjetivo, pessoal e intransferível.

Eu torço bastante o nariz quando vejo a famosa frase “pelos animais, pela saúde, pelo planeta”. Pode ser uma falha minha tentar desqualificar essa frase tão propagandeada com boas intenções pela comunidade vegana mas lá vai:

1 — os animais não sabem que estão sob o nosso jugo e sua sorte depende de nós, enxergam apenas o sofrimento próprio. Em determinadas condições seu cachorro poderia devorar você.

2 — sua saúde não depende somente do que você come e está provado que é possível ter boa saúde comendo derivados animais. Sem melindre, é verdade. E aí?

3 — o planeta está pouco se fudendo com os animais, com você e com sua saúde. Tire o ser humano e os outros animais e o mundo vai continuar girando sozinho.

Esmiuçar cada um desse itens demandaria um trabalho detalhado, o texto ficaria gigante e eu perderia um tempo precioso em que poderia estar jogando videogame. Então minha preguiça manda eu deixar essa tarefa para quem queira dedicar-se a ela, tanto para ratificar como retificar minhas ideias.

Vamos ao ponto. A questão somos nós.

Desde que um macaco usou pela primeira vez um osso para caçar, desde que um índio ofereceu pela primeira vez um fruto a um animal para saber se era comestível ou venenoso.

Esqueça todo o resto. Esqueça o custo do carbono, esqueça os cães enjaulados na China. Esqueça a saúde num mundo onde a água potável vem com hormônios.

Mire no fundo. De novo: a questão somos nós, sempre fomos nós.

Por muito tempo não houve certeza se é possível viver sem carne/leite/ovo, por muito tempo não houve dúvida de que os animais estão aí para nos dispormos deles como bem entendemos.

Agora há. Sobram dúvidas.

A filosofia e a ciência já enxergam que não há nada de errado em deixar os animais em paz. E estão indo mais longe dizendo que é o melhor a se fazer. Está provado que não precisamos deles em 99,99% das coisas em que nos ocupamos nesse mundo moderno.

Concluindo, então qual é o ponto que deve ter foco?

Nós fazemos o que fazemos com os animais porque podemos, temos esse poder. Por muito tempo fizemos isso porque precisávamos, ou achávamos que precisávamos. Mas não precisamos mais, então por que continuar?

Será melhor continuar? Veja o estado das coisas. Veja como está a natureza, veja o impacto da produção industrial de carne. Veja o que um homem precisa fazer com suas próprias mãos para que você tenha uma bolsa ou casaco bonito. Veja o que o excesso de proteína faz com o organismo humano.

Enquanto focamos na questão da saúde, defensores do bife inventam a carne que baixa colesterol. Enquanto falamos do sofrimento na indústria de carne, eles se empenham na implantação do bem-estarismo. Veja, eles sempre encontrarão uma saída que não envolva derrubar os ocultos, empoeirados, antigos e onipresentes pilares do especismo.

Tratamos os outros animais como coisas. Fazemos isso porque sempre fizemos isso. Nós temos esse poder. Um poder que conquistamos há muito tempo.

Mas agora que temos consciência de tudo, podemos concluir que sempre foi e é nosso direito? Temos o direito de continuar tratando os outros animais como propriedade, escravos, objetos comestíveis, instrumentos e brinquedos?

Ética, direitos, deveres. O ponto fica por aí. É aí que está a razão de existência do veganismo. Todo o resto é derivação que não se sustenta sozinha.