A mercenária negra

Ou: A realidade e o mundo que criamos conforme nossas afeições

Há um episódio da animação da Liga da Justiça: Sem Limites, chamado Para o homem que já tem tudo. É baseado em uma história de Alan Moore e é um dos melhores de toda a série.

É o aniversário do Superman e Mulher-Maravilha e Batman vão visitá-lo na Fortaleza da Solidão. Ao chegar, encontram-no numa espécie de transe hipnótico provocado por uma planta parasita, a mercenária negra, num sonho do qual não consegue despertar.

Esta planta foi, de forma enganosa como um agradecimento de um povo salvo por ele, presenteada por Mongul, que deseja tirar Superman de seu caminho, pois era o único com poderes para impedir seu desejo de domínio do mundo.

Enquanto Mulher-Maravilha e Batman lutam para livrá-lo da planta e de seu devaneio, Superman vive os desejos mais profundos de seu coração: uma vida simples como fazendeiro em seu planeta natal, Krypton, casado e com um filho.

Na sequência mais tocante da animação, Kal-El, que, a cada tentativa de Batman de livrá-lo da mercenária negra, sente um tremor neste seu mundo de sonhos, aos poucos percebe que é tudo uma ilusão e, aos prantos, enfim se despede de seu filho, prometendo jamais esquecê-lo, enquanto Batman finalmente lhe arranca a mercenária negra e a Krypton do sonho explode como a Krypton real. Profundamente abalado, Superman acorda de seu transe poucos instantes depois.

O mundo de sua ilusão era tudo quanto ele queria. Mas era falso. Era mau. Não era capaz senão de resultar no sofrimento que, em ira, partindo para cima de Mongul, exclama: "Você por acaso tem ideia da monstruosidade que me fez passar?"

A animação continua, mas este sonho de vida comum é o que caracteriza o caráter do personagem e a esperança que o anima, talvez não de viver o sonho ele mesmo, mas de proporcionar à humanidade a possibilidade da qual ele mesmo foi privado. É o próprio altruísmo algo messiânico do personagem e esta é uma das razões, belíssima, de o episódio ser tão bom.


Eu sempre fiquei impressionado com a capacidade humana em criar mundos. Não falo aqui da esplêndida capacidade criativa própria da imago Dei a imaginar universos sem fim. Estou falando da corrupção desta imagem a criar as desculpas mais elaboradas para convencer a si mesma de que está bem fugir do Bem.

Todos nós temos nossas afeições. Todos temos nosso coração, num sentido bem hebraico do termo, voltado para algo que fundamenta tudo o que somos, sentimos, desejamos e pensamos. Não há edifício racional, por mais grandioso e belo que seja, que não tenha em sua base este fundamento. A razão, embora tenha sido entronizada, não é soberana. Simplesmente porque não pode ser. É apenas o instrumento inevitável de nossas afeições.

Este pois, é o instrumento que constrói mundos. O que é a realidade? As mais diversas linhas de pensamento terão as mais variadas respostas, fingindo não haver afeições, ou, quando as admite, acreditando que há razões antes de afeições que as possam justificar. Pobre homem sempre escravo que se tem por livre, sempre vassalo da soberania diante da qual se ajoelha mesmo quando pensa estar de pé.

Mas o que é a realidade? Os homens se exercitarão e darão suas respostas. Não são todas igualmente válidas, é claro, mas são todas igualmente justificáveis, quais sejam as premissas que as afeições julguem válidas. O exercício é bom. Não é ruim. É bom. Mas as respostas só convencerão aqueles que tiverem suas afeições dispostas a serem convencidas.

Ora, o que é a realidade? Que resta, uma vez que não podemos confiar na razão? Agostinho há muito deu uma boa resposta. Perguntemos à realidade o que ela é e ela dirá que é o que foi dada ser. Foi dada. Pelo que ou por quem? Ah, homens e suas afeições, vocês sabem muito bem, por mais que tentem varrer todo vestígio para debaixo do tapete.

A realidade é o que foi dada ser, e o mundo que se constrói só é mesmo um bom mundo se à realidade dada convém.


Há uma Voz que a tudo permeia, com a beleza de Sua canção a trazer à existência tudo que há. Tudo é pela Voz, desde Seu mais fugaz sussurro até o mais estrondoso de Seus estrépitos.

Atente. Ouça. Com todas as suas forças. Com todo seu entendimento. Com toda sua alma. Com todo seu coração.

O mundo que você vê só é um bom mundo se você ouve a Voz, pois só então seu mundo e a realidade se confundem e a alegria daquele é desta. Todo outro mundo é apenas sonho, por mais feliz que aparente, é apenas o sofrimento do devaneio de uma mercenária negra!