Nosso Deus de dor e prazer

Nós servimos a um Deus de dor e prazer. Nadamos em paixão e lágrimas.
O jejum preenche os nossos minutos, mas um banquete preenche os nossos anos.
(Ballydowse)

Um amigo disse certa vez que, em sua teologia infantil, via um Deus sobre as nuvens lhe dando as costas por qualquer tropeço seu.

O antropomorfismo nos é inevitável mesmo quando adultos, por nossa própria natureza. Por isso as barbas brancas de um deus infantil são absolutamente compreensíveis. Mas a teologia adulta deve abandonar todas aquelas imagens que nos possam ter imposto a nossa imaginação infantil. Entretanto, não é isso o que acontece em muitos e muitos casos.

Por um lado, temos tanto os relatos bíblicos quanto os extrabíblicos a nos relatar o sofrimento dos mártires. E todo cristão deve mesmo considerar a morte por lucro e uma bênção o padecer por amor a Cristo. Tantas e tantas vezes me sinto incomodado por minha letargia e acomodação. A perseguição não é mesmo um mal, mas um agente purificador… Devo, porém, evitar fugir do assunto.

Se, por um lado temos o exemplo dos mártires, por outro temos uma grande promessa: a de que nossa vida será abundante.

Isto significa muitas coisas, sem dúvida. Significa também que nossa vida é plena. Mesmo a bênção do martírio, que se faz prazer, aponta para esta realidade. A de que esta vida plena inclui enorme gozo no Senhor.

Mas uma vida de amor ao pecado nos legou a imagem de um deus que, além de todo poderoso, possui uns enormes olhos em busca dos nossos mínimos deslizes para nos punir. É um deus taciturno, incapaz de sorrir. É um deus incapaz de ter e conceder prazer. Ora, este não é mesmo o Deus das Escrituras. Mas como é difícil que as pessoas O vejam!

Quando alguém, certa vez, perguntou-me o que eu, por minha fé, cria ser o propósito humano neste mundo, respondi sem titubear com as palavras do catecismo: “Conhecer a Deus e gozá-lO eternamente”.

Quem me perguntou me olhou todo olhos, esbugalhados de espanto. Talvez até certo horror revelado na pergunta seguinte: “Gozar? Como assim 'gozar'?” Eu respondi com o gozo que eu queria mesmo demonstrar: “O que ordinariamente se entende por gozar: ter prazer.” Sua resposta foi: “Nunca ouvi alguém falar de Deus assim.”

E muitos que dizem conhecê-lO dizem o mesmo! Sua concepção infantil de um “deus-todo-poderoso-taciturno-juiz-mal-humorado-estraga-prazeres-cósmico” se mantém intacta. É a mesma noção infantil que faz aquela propaganda neoateísta: “Provavelmente não há um deus, então pare de se preocupar e curta sua vida.”

Sim, é verdade que “se Deus não existe, então tudo é permitido”. Mas conhecer o Deus que Se revela é saber que não há porque mais se preocupar. E é também curtir muito a vida, que é dádiva e cheia de gozo, inclusive e mesmo no martírio!

É compreensível que quem não O conheça cultive quaisquer concepções infantis de um deus. Mas quem conhece Deus deixa as coisas de menino para trás. Para a glória de Seu Criador e Salvador!

SDG!