O Conde de Monte Cristo (um breve complemento)

Por Alexandre Dumas

Roberto Vargas Jr.
Nov 4 · 3 min read

Desde a minha primeira resenha de O Conde de Monte Cristo eu meditei e conversei sobre o livro. Esperava uma segunda leitura para publicar um complemento, de acordo com estas “impressões ampliadas”, mas creio que me convém publicá-las antes disso. (E não duvido que esta segunda leitura dê ensejo a um terceiro tópico de impressões.)

Seguem, portanto, estas “impressões ampliadas”.


O Conde é, em vários níveis, um tipo de Cristo.

No que se refere à retribuição, o tema mais óbvio do livro, pelo qual, na minha resenha, comparei o Conde ao Estado (“ou, mais propriamente, um arquétipo das obras humanas enquanto agentes dos desígnios divinos”), como disse o Leonardo Bruno Galdino: “a história é basicamente de um homem que, após ser lançado à morte, ressurge com poder e grande glória para retribuir a cada um conforme as suas obras.”

Ainda quanto à retribuição, a família Villefort é uma Sodoma na qual o Conde há de fazer chover fogo e enxofre. No entanto, há um Ló naquela família, a sua filha Valentine. E há um Abraão que intercede por ela, o seu apaixonado Maximilien Morrel. Em contraste com o Conde, Deus sabe todas as coisas, mas em semelhança a Abraão, mesmo assim somos instados a interceder pela salvação dos justos que Ele há de trazer a Si.

Também foi o Leo quem me chamou a atenção para os disfarces assumidos por Dantes, dizendo que três deles são bastante significativos: o de sacerdote, quando se passa por abade ao ter com Caderousse; o de profeta, quando se passa por representante do credor de Morrel; e de rei, quando se passa por Simbad e pelo próprio Conde.

De todos os aspectos que me tocam, porém, nenhum me toca mais que o do noivado do Conde, ou de Cristo como o Noivo. Ou ainda melhor, falar da Igreja como a Noiva de Cristo é sempre algo que me toca profundamente.

Talvez porque amo minha esposa tão imperfeita quanto intensamente, e o contraste torna a beleza da semelhança da imagem daquelas de nos tirar o fôlego.

Então lembro de Haydée

Pois, no começo, o Conde possui uma noiva de beleza magnífica, Mercedes. Infelizmente, apesar de jamais deixar de o amar, acaba, na prática, por rejeitá-lo. E ele, embora a trate com certo carinho, não a tem mais por sua noiva.

Mais tarde o Conde compra em resgate e conquista outra noiva, Haydée, de beleza ainda mais magnífica, arrebatadora. Uma noiva que, em ações de graças, o ama e é totalmente submissa a ele. Esta é a noiva com quem ele passará todo o porvir além das páginas do livro.

E, se bem que a Noiva de Cristo seja uma só, há, no tempo, duas alianças distintas. Aqueles da Igreja que morreram na Antiga viveram, enfim, ainda que sem o saber ao certo, na expectativa da Nova. E aqueles de Israel que foram adotados na Nova compreendem bem o preço do seu resgate. Foram todos comprados pelo sangue na Nova Aliança.

Mercedes me aqueceu o coração ao mesmo tempo que me entristeceu sobremaneira. Como Paulo a lamentar seus irmãos. Haydée me arrebatou de tal modo a me fazer enrubescer a face, como numa paixão inesperada e incontida. Pela minha esposa. Por sermos Igreja.

Eis, enfim, algumas das razões pelas quais O Conde de Monte Cristo é um dos livros da minha vida!


DUMAS, Alexandre. O Conde de Monte Cristo. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

Roberto Vargas Jr.

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Um desagradável pecador salvo pela Graça.

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