Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda

Por Howard Pyle

Roberto Vargas Jr.
Jun 25 · 4 min read

Desde pequeno as lendas arthurianas me cativaram, embora eu jamais tivesse realmente contato com elas, senão superficial. O primeiro contato mais próximo, ainda adolescente e ainda distante da santa fé, foi quando li As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.

Minha fraca memória só me permite lembrar de flashes da história, entretanto, do que lembro, a narrativa é do crescente afastamento do mundo mágico dos celtas, com seus druidas e fadas, por conta do avanço do Cristianismo, e isso pelo ponto de vista das mulheres, especialmente o de Morgana. As “brumas” envolvem um local que leva a outro mundo, um mundo que enfim perde todo o contato com o nosso mundo.

Em certo sentido, não deixa de ser verdade que o mundo cristão perdeu a magia. O que é uma ironia em meio ao misticismo crescente e, depois, à acusação de superstição obscurantista que o Iluminismo impõe ao Cristianismo (e que dura até hoje). Seja como for, sempre tive, depois disso, e mesmo à época, curiosidade em ler sobre as lendas de Arthur sob uma ótica cristã (não importando realmente o quanto o contador da história adira ao Cristianismo).

Faço, enfim, tantos anos depois, a oportunidade com a leitura desta obra de Pyle. E a primeira coisa que convém dizer é que esta obra traduzida pela Zahar é apenas o primeiro de quatro volumes do autor. É bom enfatizar isso, pois eu mesmo só o percebi ao fim da leitura e isso foi um tanto frustrante para quem queria ter um quadro mais completo das lendas.

Um tanto frustrante, mas, por outro lado, é um incentivo a buscar os outros três volumes de Pyle e, mais ainda, o famoso clássico de Thomas Malory. Espero ter a ocasião para tal.

Enquanto esta ocasião não chega, a obra de Pyle, até onde ela foi, é suficiente para satisfazer a principal das minhas curiosidades, que é como uma narrativa de fundo cristão se relacionaria com a magia. E devo dizer que foi bastante agradável de se ler.

A narrativa é bastante, digamos, linear, sem desenvolvimento de personagens nem descrições muito detalhadas dos locais. É como se alguém nos contasse a história de um outro alguém que já conhecemos muito bem, o que dispensa maiores detalhes. E não há a menor tentativa de fazer dar realmente sentido às inúmeras mudanças nos destinos dos personagens. Se há sentido, é todo ele imagético. É, de fato, um conto de fadas cristianizado. E era tudo o que eu gostaria que fosse, mesmo que o texto soe bastante infanto-juvenil.

Algo que considerei bastante divertido foi o início dos capítulos, o que deve causar urticária àqueles que detestam spoilers. O primeiro capítulo da primeira parte, por exemplo, diz:

Como Sir Kay lutou em um grande torneio na cidade de Londres e como partiu sua espada. Também como Arthur encontrou uma nova espada para ele

Como se não bastasse, há em alguns pontos um resumo do que se lerá a seguir, seguido de um "tenho grandes esperanças de que aqueles que lerem o que escrevi achem a história tão agradável quanto divertida". Em nada tais spoilers se fazem um estraga prazeres da história, mas eu realmente considerei divertido pensar nos que os detestam.

Quanto ao fundo cristão, o fim de cada capítulo (ou parte) tem um ensino moral, tal qual este:

Assim termina a história da conquista de Excalibur, e que Deus permita que nas suas vidas vocês tenham a verdade Dele para auxiliá-los, como uma espada reluzente com que possam derrotar seus inimigos. E que Ele lhes dê Fé (pois a Fé comporta a Verdade da mesma forma como a bainha comporta sua espada), e que essa Fé cure todas as feridas do sofrimento como a bainha de Excalibur curava todas as feridas daquele que usasse essa excelente espada. Pois com a Verdade e a Fé afiveladas ao corpo, vocês poderão travar todas as suas lutas como aquele antigo herói que os homens chamaram de Rei Arthur.

Mais que isso, o ideal cavalheiresco é o que de melhor há em histórias de cavaleiros. É o que de melhor há nas lendas arthurianas. É um ideal por certo antiquado aos nossos tempos. Mas eu, que sou um homem aquém de meu tempo, amo essas coisas com toda a força vital que há em mim. Coisas como essas:

Esse foi o juramento da Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda: que seriam gentis com os fracos, corajosos com os fortes e terríveis com os maus, e defenderiam os desprotegidos que lhes pedissem ajuda. E também que todas as mulheres lhes deveriam ser sagradas, e que deveriam defender-se uns aos outros sempre que fosse necessário; e que deveriam ser misericordiosos com todos os homens, e suas ações deveriam ser gentis, de verdadeira amizade e amor leal. Esse foi o seu juramento, e cada cavaleiro jurou sobre a cruz de sua espada e beijou-lhe o cabo como prova.

Reza a lenda que Arthur, tal qual Cristo, há de voltar. Amém! Que assim seja e que essas coisas assim voltem a ser!


PYLE, Howard. Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

Roberto Vargas Jr.

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Um desagradável pecador salvo pela Graça.

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