Sábado de Blues — 5 Clássicos do Blues Gravados por Eric Clapton #2


Antes, cabe uma explicação sobre a coluna — caso não seja do seu interesse, você pode pular direto para a parte das canções.

Sim, essa coluna é semanal. Ao menos, ela foi criada com esse pensamento em mente. Mas nos últimos meses a correria aqui foi gigante, com trabalhos enormes que me faziam já acordar correndo contra o tempo.

Então, chegou um momento que produzir os textos dessa coluna se tornou um dilema. E isso não por causa de cansaço, mas sim pela pesquisa. Explico melhor: até onde sei, hoje esta é a única coluna de blues regular que existe na internet (e, claro, posso estar errado). Então, mesmo que seja apenas um hobby meu, me sinto na responsabilidade de fazer o melhor texto possível. E o melhor texto possível, nesse caso, precisa de pesquisa.

Alguns textos dessa coluna foram escritos em uma ou duas horas. Outros demoraram um dia inteiro. Mas todos eles precisam de pelo menos um dia de pesquisa. São horas cruzando histórias de sites com referências de livros, procurando letras originais de músicas (sim, muitas mudaram com o tempo) e sempre contextualizando tudo com a época da canção — o que, para mim, é a grande graça de se pensar sobre música.

Então, meu dilema se tornou “produzir textos toda semana ou produzir textos com qualidade”. Eu optei pela segunda opção, por isso a ausência durante algum tempo — apesar de eu não ter postado nada aqui sobre isso (porque eu sempre tinha a esperança de que “essa semana deve dar”), falei mais de uma vez sobre isso no Twitter.

Concluindo: a coluna continua? Claro. Mas ela continuará semanal? Sim, mas em teoria. Pode ser que alguma semana o tempo aperte. Pode ser que alguma semana o cansaço vença. Mas a ideia é fazer com que ela tenha regularidade — e inclusive pretendo aproveitar os poucos espaços de tempo para produzir textos de gavetas. Conto com a compreensão e com a paciência de vocês.

Isto posto, vamos falar de música. Um dos últimos textos foi o início de uma série sobre os blues clássicos regravados por Clapton. Foi um dos textos mais bem recebidos aqui, já que muitas pessoas ouvem os covers regravados por Clapton e querem conhecer um pouco mais dos artistas por trás dos originais. Como muita gente pediu logo pela segunda parte, vamos a ela — ah, sim, sempre me sugiram temas que vocês querem aqui, isso ajuda demais.

E sim, a playlist do Spotify publicada no texto anterior está atualizada com essas novas canções. Mas vamos falar de blues.


If I Have Possession Over the Judgment Day (1936)

Mas quando pensamos na modernização que Clapton faz de clássicos do blues, é impossível deixar de fora If I Have Possession Over the Judgment Day, de Robert Johnson. Aliás, a reverência de Clapton ao guitarrista norte-americano é descomunal, e até mesmo virou o CD Me and Mr. Johnson, que, para mim, é praticamente uma aula de blues.

Claro que os holofotes apontaram para os maiores clássicos de Johnson, como Sweet Home Chicago e Me and the Devil Blues. Mas o álbum todo é excelente e If I Have Possession Over the Judgment Day é, talvez, a grande surpresa. A letra é mais que amargurada e chega a ser raivosa (Johnson canta que se ele tivesse algum poder sobre o dia do Juízo Final, ele impediria “a mulher que ama” de rezar — ou seja, está implícito que ela merece a danação eterna).

Na versão de Johnson, o vocal gritado deixa essa raiva se sobrepor à melancolia do arranjo acústico. Clapton, porém, muda tudo isso. Acompanhado de sua banda, ele transforma a canção em algo impossível de ficar parado enquanto se ouve, jogando luz (e até mesmo um pouco de alegria) sobre o lado sombrio da letra. Tinha tudo para dar errado, mas, nas mãos do inglês, virou uma obra-prima.


Rollin’ and Tumblin’ (1950)

Puxando pela memória, acho que o primeiro disco de blues que comprei na vida, no começo dos anos 90, foi o Unplugged, do Eric Clapton. Mas, na época, eu não imaginava que aquele disco era de blues — para mim, era apenas um disco de Clapton, um dos maiores guitarristas do mundo. Hoje, porém, sempre que eu revisito esse disco eu entendo porque Clapton é o nome mais popular do blues na atualidade.

Aliás, nos anos 90, eu também nem desconfiava que a última canção do disco, Rollin’ and Tumblin’, era de Muddy Waters, um dos maiores blueseiros de todos os tempos e um dos grandes ídolos de Clapton. Hoje, quando ouço essa canção, já me sinto caminhando em território familiar.

Mas, na verdade, a música não é de Waters — Clapton apenas usa a versão do guitarrista como base. A versão de Water acabou se tornando a mais conhecida, mais Rollin’ and Tumblin’ foi gravada em 1929 pelo blueseiro Hambone Willie Newbern (com o nome de Roll and Tumble) e foi regravada por Deus e o mundo ao longo das décadas — Clapton, com sua versão adorável, apenas inscreveu seu nome nessa longa lista.

Em tempo: volte para If I Have Possession Over the Judgment Day e ouça a versão original de Johnson, e preste atenção no ritmo. Sim, essa é nada menos que a versão de Robert Johnson para Rollin’ and Tumblin’.


Travellin’ Alone (1951)

Clapton é famoso por regravar canções de blueseiros consagrados, mas talvez o que o coloque quase como um porta-voz contemporâneo do blues é justamente apresentar artistas não conhecidos para as novas gerações. Sua discografia está repleta de canções de blueseiros menores (e, por “menores”, eu me refiro especificamente à fama que esses artistas possuem hoje) e este é um dos maiores tesouros de sua obra.

Este é o caso de Travellin’ Alone, que abre seu disco Clapton, de 2010. A canção é de Lil’ Son Jackson (ou Melvin Jackson), um dos blueseiros com uma das histórias mais tristes de sua geração. Jackson fez sucesso razoável nos anos 50, até que um acidente de carro interrompeu sua carreira e ele voltou ao seu emprego original, como mecânico.

Ele chegou a gravar um disco em 1960, mas nunca mais retomou sua carreira, mesmo quando antigos blueseiros foram redescobertos, o que gerou uma nova onda de sucesso. Assim, acabou sendo praticamente esquecido e desconhecido das gerações atuais. Então, como eu disse acima, essa talvez seja grande a importância da fase atual de Clapton: manter viva a obra de grandes artistas que o tempo tenta apagar.


Have You Ever Loved a Woman (1960)

Acho que eu já mencionei isso aqui antes, mas dizem que o blues possui três reis: B. B. King, Albert King e Freddy King. Este último, apesar de ser um dos maiores nomes da história do blues do Texas, se consagrou por fazer um som que mesclava o estilo consagrado do seu estado de origem com os vocais mais gritados, parecidos com o blues de Chicago (deixo aqui a dica de conferir os textos sobre os gêneros do blues, aqui e aqui).

King brilhou a partir dos anos 60, quando o blues já era dominado pelas guitarras elétricas, especialmente com dois sucessos monstruosos: Hide Away e Have You ever Loved a Woman. E foi esta que Clapton homenageou diversas vezes — a primeira vez que ela tocou num palco foi em 1965, ao lado de John Mayall e dos Bluesbrakers.

Mas foi somente em 1970 que ele gravou sua versão de estúdio para o clássico Layla And Other Assorted Love Songs, único disco do supergrupo Derek and the Dominos. A versão, magistral, brilha por trazer um dos vocais mais delicados de Clapton e pela presença de Duanne Allman, mago da guitarra que morreria tragicamente num acidente de moto menos de um ano após o lançamento do disco.


Still Got the Blues (1990)

De todas as músicas que foram regravadas por Clapton ao longo de sua carreira, essa é de longe uma das mais conhecidas. Uma daquelas canções que todo mundo conhece (e muita gente nem sabe o nome) Still Got the Blues é o maior sucesso do guitarrista irlandês Gary Moore, morto em 2011.

Por ser um sucesso gigante, Clapton fez o mais indicado e criou uma versão totalmente nova para a canção. Se a original tinha um pé no hard rock — o que era habitual no trabalho de Moore — aqui ele cria uma versão praticamente gospel, abusando de teclados e do coro, e que remete diretamente à versão original somente no solo (magnífico) do final.

Mesmo assim, como é do seu feitio, a essência da música continua inteira ali — basta ela começar para reconhecê-la. E apesar de guitarra elegante do original, Still Got the Blues tem uma letra extremamente melancólica, e a versão de Clapton reforça isso, deixando todo o universo da canção mais cinzento… E um pouco mais amargo. Resumindo: é uma versão completamente diferente da original, mas com a mesma qualidade. E ainda mais triste. Afinal, se a versão de Moore esbanja melancolia, a de Clapton vaio além e parece ser conformada e totalmente desprovida de esperança.


Gostou do texto? Então clique no “Recommend” abaixo e faça esse post — e, mais importante, essas músicas — chegarem até outras pessoas. Sim, seu clique é mais importante que você imagina!