Sábado de Blues: 5 Discos de Blues para Conhecer #6


Chegamos ao sexto post dessa série. Caso você seja novo por aqui, cabe uma explicação rápida: em cada post, eu indico cinco bons discos de blues. Mas a escolha não é aleatória, e serve bastante para quem deseja dar os primeiros passos no gênero. Por isso, eu normalmente não falo de mais de um estilo por post.

E um aviso importante: não se tratam dos melhores discos de blues da história — embora alguns realmente sejam. O ponto aqui é mostrar trabalhos escolhidos de alguns dos maiores nomes do gênero. Nem todos os discos dessa série entraram para a história do blues, mas certamente a história do blues (e o entendimento dela) passa por eles.

Caso você queira conferir, o post anterior da série está aqui. E vamos aos discos da vez.


Robert Nighthwak
(Live on Maxwell Street — 1964)

 
 Se existisse uma lista de blueseiros que mereciam ser mais conhecidos, Robert Nighthawk estaria no topo da relação. Afinal, quem começa a ouvir blues sempre se pergunta como o blues do delta do Mississipi chegou ao blues elétrico de Chicago… E Nighthawk explica muito disso, servindo como ponte entre esses dois momentos gigantes do blues.

Live on Maxwell Street é um excelente ponto de partida para seu trabalho. Mas não se engane pelo nome: aqui, Nighthwak não está tocando em algum bar localizado na rua Maxwell; pelo contrário, ele está tocando na rua, sentado na calçada e cercado pelos seus músicos de apoio — em alguns momentos, é possível ouvir os carros passando ao fundo. Confie em mim: isso aqui é blues em estado puro. E você certamente nunca ouviu um disco como esse.

Minha preferida:
The Maxwell Street Medley— É uma combinação especial dos dois maiores sucessos de Nihhthwak: Anna Lee e Sweet Black Angel (que daria origem a Sweet Little Angel, imortalizada por B.B. King).

Preste atenção em:
Going Down to ‘Elis — É a música de abertura do show e já dá o tom do que vem a seguir. É um blues de primeira qualidade, com tudo o que um blues precisa ser: descompromissado e intenso, despojado e trágico (a letra é violentíssima, já que Elis é o bar onde o músico foi buscar uma arma para matar a mulher que ama).


Mississippi Fred McDowell
(I Do Not Play No Rock’n’Roll — 1969)

 
 Em 1969, o blueseiro Mississipi Fred McDowell gravou, pela primeira vez, usando uma guitarra elétrica. O impacto disso foi enorme. McDowell passou a vida tocando blues — começou a cantar na década de 20 — mas sempre de forma semiprofissional. Nunca conseguiu se sustentar com sua música, e a fama veio apenas no final dos anos 50, quando foi descoberto por Alan Lomax, sujeito que percorria o sul do Mississipi estudando músicas populares.

Ao pegar uma guitarra elétrica, os fãs torceram o nariz — se a repercussão de McDowell eletrificar seu som foi infinitamente menor que quando Bob Dylan fez isso, o ódio do público foi o mesmo. Afinal, estava claro para todos que o blueseiro estava “vendendo sua arte” em troca de uma carona no rock. Bobagem. O nome do disco já deixa claro o que McDowell pensava: ele não toca rock’n’roll… E sim um blues de primeiríssima qualidade.

Minha preferida:
Baby Don’t Please Go — Pessoalmente, a escolha para mim, aqui, é fácil. Sou apaixonado por essa canção composta por Big Joe Williams e que ganhou todos os tipos de cover possíveis. Este, de Mississipi Fred McDowell é delicioso, e conta ainda com uma introdução em que ele se apresenta e diz: “eu não tock rock ‘n’roll, apenas o ‘blues natural de rua’”. )

Preste Atenção em:
Good Morning Little School Girl — Apesar do disco trazer pérolas compostas pelo próprio Mississipi Fred McDowell, um dos destaques é este cover delicioso de um dos maiores sucessos do primeiro (e lendário) Sonny Boy Williamson— e certamente uma das músicas mais safadas do blues.


Eric Clapton
(From the Cradle — 1994)

Clapton… Que figura admirável. Um dos maiores guitarristas da história do rock sempre foi apaixonado por blues — e recomendo aqui sua autobiografia, um dos livros mais pesados que li na vida, e que ao mesmo tempo é uma ode de amor ao blues. Mas — e aqui é a minha opinião — parece que ele se encontrou somente como blueseiro nos anos 90. Até então, ele trafegava — sempre com qualidade — entre o rock e o blues.

From the Cradle mudou tudo isso. Pela primeira, Clapton deixou o rock completamente de lado e mergulhou fundo nas músicas que o formaram como músico (daí o nome que poderia ser traduzido como “Do Berço”). São clássicos e mais clássicos do blues, que ganham arranjos elegantes na mão de um guitarrista que os interpreta com uma reverência quase religiosa. Confie em mim: atualmente, poucos entendem o blues como Clapton, e esse disco é prova disso.

Minha favorita:
Blues Before Sunrise — um dos maiores sucessos do pianista Leroy Carr abre o disco de forma brilhante. Sim, ela se tornou um blues rock em seu arranjo instrumental, mas assim que Clapton começa a cantar — com uma voz rouca, quase irreconhecível — fica claro que você está ouvindo blues puro.

Preste atenção em:
Hoochie Coochie Man — Um dos maiores guitarristas de blues de todos os tempos interpretando um dos maiores hinos da história do blues. Precisa mais? Não. Mas mesmo assim Clapton entrega até a alma nessa versão deslumbrante de uma das muitas músicas assinaturas de Muddy Waters.


Albert Collins / Robert Cray / Johnnie Copeland
(Showdown — 1985)

Blues nos anos 80? Parece algo difícil de acreditar, já que nessa época o gênero já estava longe de viver seus dias mais populares. Mas, em 1985, três guitarristas lendários entraram juntos em um estúdio e começaram a tocar. Certo, não deve ter sido assim tão casual, mas é difícil imaginar outra situação para esse encontro ao ouvir Showdown.

Robert Cray, seu ídolo Albert Collins e o texano genial Johnny Copeland parecem se divertir mais que a plateia ao criarem obras-primas do blues com uma facilidade que chega a ser difícil de compreender. O entrosamento entre eles chega a ser absurdo e, temperados com arranjos modernos, o disco é obrigatório para quem deseja dar os primeiros passos no blues elétrico.

Minha favorita:
Bring Your Fine Self Home — Que título fantástico, com todas as implicações românticas e eróticas que você puder entender. E a guitarra… Bem, Collins, Cray e Coppeland mostram que a elegância da guitarra do blues é simplesmente atemporal.

Preste atenção em:
She’s into Something — É impossível não ficar parado nessa versão do clássico de Muddy Waters que os guitarristas trouxeram para o disco. Funkeada, dançante e com guitarras deliciosas, é um dos pontos altos do disco.


The Paul Butterfield Blues Band
(The Paul Butterfield Blues Band — 1965)

Em 4 de maio de 1987, o mundo perdeu um dos guitarristas mais brilhantes de sua história com a morte de Paul Butterfield, aos 44 anos, por causa de uma overdose de heroína. Não foi apenas uma carreira interrompida precocemente de forma triste, pois Butterfield era um daqueles talentos que não aparecem da noite para o dia.

A essa altura, o primeiro disco de sua banda — que levava seu nome — já havia entrado para a história como um dos grandes álbuns modernos de blues. Mas há controvérsias sobre o gênero. Afinal, ele tem um pé e meio no blues rock (algo comum para os artistas da época), mas a gaita de Butterfield remete diretamente ao blues puro de gênios como Sonny Boy Williamson e Little Walter.

Minha favorita:
Born in Chicago — É o tipo de música que precisa ser escutada três vezes. A primeira para entender a letra, que fala sobre a violência de Chicago. A segunda, para conseguir decifrar tudo o que a gaita de Butterfield, sempre à frente dos outros instrumentos, faz. E a terceira para finalmente compreender como a canção mistura tudo isso de forma genial.

Preste atenção em:
Got my Mojo Working — Que delícia de cover de Muddy Waters. Chega a ser curioso como alguns nomes do blues estavam fazendo hard rock antes do hard rock ser realmente inventado. Esse é o caso aqui, e a gaita de Butterfield deixa tudo ainda mais saboroso. É daquelas músicas de dançar na sala.


Gostou do texto? Então clique no “Recommend” abaixo e faça esse post — e, mais importante, essas músicas — chegarem até outras pessoas. Sim, seu clique é mais importante que você imagina! E não se esqueça de me seguir aqui: todo sábado tem um texto novo com o melhor do blues.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.